No tex­to a seguir, con­cla­ma-se à defe­sa de Ilha Com­pri­da, um dos tan­tos e cada vez mais ameaça­dos  san­tuários ecológi­cos brasileiros, em face do aten­ta­do imi­nente que atinge  tan­tos out­ros ecos­sis­temas, de destru­ição, resul­ta­do da desas­trosa e tradi­cional aliança da ganân­cia do mer­ca­do com a conivente e dis­farça­da omis­são poílti­ca, muito emb­o­ra a pre­sença de deveres e respon­s­abil­i­dades ambi­en­tais constitucionais..

 

PLANO DE MANEJO DE ILHA COMPRIDA PODE DEFINIR O FUTURO AMBIENTAL, SOCIAL E ECONÔMICO DO MUNICÍPIO

Mar­cus Pontes Caduti

Na próx­i­ma sex­ta-feira, 29 de maio, às 9h, Ilha Com­pri­da realizará uma audiên­cia públi­ca que pode se tornar um dos acon­tec­i­men­tos políti­cos e ambi­en­tais mais impor­tantes de sua história recente. O debate sobre o Plano de Mane­jo da Área de Pro­teção Ambi­en­tal Ilha Com­pri­da não é ape­nas uma reunião téc­ni­ca des­ti­na­da a espe­cial­is­tas, gestores públi­cos ou ambi­en­tal­is­tas. Tra­ta-se de uma dis­cussão que impactará dire­ta­mente o cotid­i­ano da pop­u­lação, espe­cial­mente daque­les que depen­dem da natureza para sobre­viv­er, tra­bal­har e man­ter suas tradições cul­tur­ais. Por isso, ninguém dev­e­ria ficar de fora dessa audiên­cia, prin­ci­pal­mente pescadores arte­sanais, cata­dores de carangue­jo, extra­tores de ostras, artesãs que uti­lizam a taboa como matéria-pri­ma, tra­bal­hadores que cole­tam macela, pequenos empreende­dores do tur­is­mo local, moradores de bair­ros tradi­cionais e todos que com­preen­dem que a preser­vação ambi­en­tal não é um obstácu­lo ao desen­volvi­men­to, mas a própria condição para a existên­cia econômi­ca de Ilha Comprida.

O municí­pio pos­sui uma condição ter­ri­to­r­i­al extrema­mente pecu­liar e rara no Brasil. Toda a exten­são ter­ri­to­r­i­al da cidade está inseri­da den­tro da Área de Pro­teção Ambi­en­tal Ilha Com­pri­da, uma Unidade de Con­ser­vação cri­a­da jus­ta­mente para garan­tir a pro­teção de ecos­sis­temas frágeis e de grande relevân­cia ecológ­i­ca. Além dis­so, o ter­ritório ain­da sofre sobreposição de out­ras unidades de con­ser­vação ambi­en­tal, como a Área de Rel­e­vante Inter­esse Ecológi­co da Zona de Vida Sil­vestre, a Área de Rel­e­vante Inter­esse Ecológi­co do Guará, a Área de Pro­teção Ambi­en­tal Cananéia-Iguape-Peruíbe e a Área de Pro­teção Ambi­en­tal Mar­in­ha do Litoral Sul. Essa com­plexa sobreposição demon­stra que o ter­ritório de Ilha Com­pri­da pos­sui importân­cia estratég­i­ca para a con­ser­vação ambi­en­tal não ape­nas regional­mente, mas em escala nacional e inter­na­cional, espe­cial­mente por inte­grar o com­plexo ecológi­co do Laga­mar, uma das regiões de maior bio­di­ver­si­dade do planeta.

Na teo­ria, um municí­pio cer­ca­do por tan­tas for­mas de pro­teção ambi­en­tal dev­e­ria pos­suir fis­cal­iza­ção rig­orosa, políti­cas per­ma­nentes de preser­vação ecológ­i­ca e forte con­t­role sobre o avanço da ocu­pação humana em áreas sen­síveis. Entre­tan­to, a real­i­dade encon­tra­da em Ilha Com­pri­da rev­ela um cenário com­ple­ta­mente difer­ente. Ape­sar da pre­sença insti­tu­cional de órgãos como a Fun­dação Flo­re­stal, o ICM­Bio, a CETESB e a própria Divisão Munic­i­pal de Meio Ambi­ente, o que se obser­va diari­a­mente é o avanço con­tín­uo da degradação ambi­en­tal. Ecos­sis­temas inteiros vêm sendo destruí­dos diante da aparente inca­paci­dade, omis­são ou per­mis­sivi­dade dessas insti­tu­ições respon­sáveis pela pro­teção ambiental.

Bre­jos, cam­pos úmi­dos e áreas ala­gadiças vêm sendo ater­ra­dos em rit­mo acel­er­a­do para expan­são imo­bil­iária, aber­tu­ra irreg­u­lar de aces­sos e ocu­pações humanas. Ess­es ambi­entes não são áreas impro­du­ti­vas ou “vazios urbanos”, como fre­quente­mente são trata­dos pela lóg­i­ca espec­u­la­ti­va. São ecos­sis­temas fun­da­men­tais para o equi­líbrio hídri­co da ilha, para a drenagem nat­ur­al das águas das chu­vas, para a manutenção da bio­di­ver­si­dade e tam­bém para ativi­dades econômi­cas tradi­cionais desen­volvi­das his­tori­ca­mente pela pop­u­lação local que mane­ja a taboa para pro­dução arte­sanal. Quan­do um bre­jo é ater­ra­do, não ocorre ape­nas um impacto pais­agís­ti­co. O que desa­parece jun­to é um con­jun­to de funções ecológ­i­cas essen­ci­ais para o fun­ciona­men­to ambi­en­tal da ilha.

As artesãs que uti­lizam a taboa para pro­dução de peças arte­sanais já enfrentam difi­cul­dades cres­centes pela redução dessas áreas úmi­das. A taboa, além de pos­suir importân­cia cul­tur­al e econômi­ca, depende dire­ta­mente da preser­vação dess­es ambi­entes ala­gadiços para con­tin­uar existin­do em abundân­cia. O mes­mo ocorre com a macela, plan­ta tradi­cional­mente uti­liza­da por moradores locais tan­to para fins med­i­c­i­nais quan­to econômi­cos, e tam­bém com out­ras espé­cies veg­e­tais asso­ci­adas aos ecos­sis­temas de restin­ga e cam­pos úmi­dos. A destru­ição ambi­en­tal, por­tan­to, não afe­ta ape­nas a fau­na e a flo­ra. Ela atinge dire­ta­mente for­mas de sub­sistên­cia, saberes tradi­cionais e econo­mias pop­u­lares con­struí­das ao lon­go de gerações.

Out­ro prob­le­ma ambi­en­tal cada vez mais visív­el em Ilha Com­pri­da é o cresci­men­to descon­tro­la­do de espé­cies ani­mais exóti­cas intro­duzi­das pela própria ação humana. Gatos e cachor­ros soltos, aban­don­a­dos ou cri­a­dos sem qual­quer con­t­role já se trans­for­maram em impor­tantes predadores da fau­na sil­vestre local. Em áreas de restin­ga, dunas, bre­jos e mar­gens de manguezais, ess­es ani­mais ata­cam aves nati­vas, fil­hotes, ovos, pequenos mamífer­os, répteis e anfíbios, cau­san­do impactos silen­ciosos, mas extrema­mente graves para o equi­líbrio ecológi­co. Muitas espé­cies de aves que nid­i­fi­cam no chão da restin­ga tor­nam-se víti­mas fáceis dess­es predadores domés­ti­cos. O prob­le­ma se agra­va pela ausên­cia de políti­cas públi­cas efi­cientes de con­t­role pop­u­la­cional, fis­cal­iza­ção e edu­cação ambi­en­tal. Para­le­la­mente, a cri­ação irreg­u­lar de equinos, suínos, capri­nos e gal­in­has em áreas urbanas e ambi­en­tal­mente frágeis tam­bém vem amplian­do prob­le­mas san­itários, degradação do solo, com­pactação de áreas úmi­das e destru­ição da veg­e­tação nati­va. Em diver­sos pon­tos da cidade, ani­mais de grande porte cir­cu­lam livre­mente por vias públi­cas, áreas de preser­vação e ter­renos ala­gadiços, demon­stran­do a com­ple­ta ausên­cia de orde­na­men­to ambi­en­tal e fis­cal­iza­ção efetiva.

Além dos ani­mais domés­ti­cos e de cri­ação, Ilha Com­pri­da tam­bém enfrenta o avanço silen­cioso de espé­cies exóti­cas ori­un­das do comér­cio ile­gal ou irre­spon­sáv­el de ani­mais sil­vestres man­ti­dos como pets. Algu­mas espé­cies de répteis e mamífer­os exóti­cos escaparam ou foram aban­don­adas e hoje já con­seguem sobre­viv­er e se repro­duzir em ambi­entes nat­u­rais da ilha, crian­do riscos ain­da pouco estu­da­dos para a fau­na nati­va. O prob­le­ma não se limi­ta ao ambi­ente ter­restre. Nas águas do com­plexo lagu­nar do Laga­mar, espé­cies exóti­cas de peix­es vêm alteran­do o equi­líbrio ecológi­co de rios, canais e áreas estu­ar­i­nas. Entre as maiores pre­ocu­pações está a pre­sença do camarão-da-Malásia, espé­cie exóti­ca intro­duzi­da para cul­ti­vo com­er­cial e que hoje ameaça espé­cies nati­vas ao com­pe­tir por ali­men­to e espaço ecológi­co. A intro­dução descon­tro­la­da dessas espé­cies rep­re­sen­ta um dos maiores desafios ambi­en­tais con­tem­porâ­neos, pois muitas vezes seus impactos são cumu­la­tivos, silen­ciosos e difí­ceis de revert­er. Em um ter­ritório eco­logi­ca­mente frágil como Ilha Com­pri­da, a ausên­cia de mon­i­tora­men­to e con­t­role dessas invasões biológ­i­cas pode ger­ar con­se­quên­cias pro­fun­das para a bio­di­ver­si­dade, para a pesca arte­sanal e para o equi­líbrio ambi­en­tal do Lagamar.

A degradação ambi­en­tal em Ilha Com­pri­da tam­bém atinge dire­ta­mente áreas uti­lizadas para repro­dução e nid­i­fi­cação de espé­cies extrema­mente sen­síveis e ameaçadas. A remoção da veg­e­tação nati­va de restin­ga, dos arbus­tos litorâ­neos e das áreas de tran­sição entre dunas, bre­jos e manguezais vem destru­in­do habi­tats fun­da­men­tais para aves endêmi­cas e migratórias que depen­dem dess­es ambi­entes para sobre­viv­er. Entre elas está a maria-da-restin­ga, espé­cie forte­mente asso­ci­a­da aos ecos­sis­temas de restin­ga preser­va­da e con­sid­er­a­da um impor­tante indi­cador da qual­i­dade ambi­en­tal dess­es ter­ritórios. O mes­mo ocorre com o papa­gaio-da-cara-roxa, sím­bo­lo ecológi­co do Laga­mar e espé­cie ameaça­da que uti­liza áreas flo­restadas da região para ali­men­tação, deslo­ca­men­to e repro­dução. A supressão veg­e­tal cau­sa­da pela expan­são imo­bil­iária, aber­tu­ra irreg­u­lar de aces­sos, lotea­men­tos e ocu­pações des­or­de­nadas frag­men­ta corre­dores ecológi­cos essen­ci­ais para essas aves e diver­sas out­ras espé­cies da fau­na nati­va. Além da per­da dire­ta de locais de nid­i­fi­cação, a reti­ra­da da cober­tu­ra veg­e­tal aumen­ta a exposição de nin­hos a predadores domés­ti­cos, inten­si­fi­ca alter­ações micro­climáti­cas e reduz dras­ti­ca­mente a disponi­bil­i­dade de ali­men­to. O resul­ta­do é um proces­so silen­cioso de empo­brec­i­men­to biológi­co que ameaça trans­for­mar Ilha Com­pri­da em um ter­ritório cada vez mais urban­iza­do e eco­logi­ca­mente descar­ac­ter­i­za­do, colo­can­do em risco espé­cies que exis­tem jus­ta­mente porque ess­es ecos­sis­temas ain­da resistem.

Enquan­to isso, o dis­cur­so ofi­cial fre­quente­mente ten­ta vender a ideia de pro­gres­so asso­ci­a­da ao cresci­men­to imo­bil­iário, à ver­ti­cal­iza­ção urbana e à expan­são da ocu­pação humana sobre áreas ambi­en­tal­mente frágeis. Con­tu­do, existe uma con­tradição evi­dente nesse mod­e­lo de desen­volvi­men­to. O prin­ci­pal patrimônio econômi­co de Ilha Com­pri­da é jus­ta­mente sua pais­agem nat­ur­al, suas pra­ias preser­vadas, seus manguezais, restin­gas, dunas, lagoas e a bio­di­ver­si­dade do Laga­mar. Destru­ir ess­es ecos­sis­temas para favore­cer inter­ess­es espec­u­la­tivos sig­nifi­ca com­pro­m­e­ter a própria base econômi­ca que sus­ten­ta o tur­is­mo local e diver­sas ativi­dades tradicionais.

Nos últi­mos anos, a espec­u­lação imo­bil­iária se con­soli­dou como a maior ameaça ambi­en­tal enfrenta­da pelo municí­pio. O debate gan­hou reper­cussão nacional após denún­cias pub­li­cadas pelo por­tal Mar Sem Fim, que rev­el­ou artic­u­lações políti­cas e alter­ações leg­isla­ti­vas des­ti­nadas a facil­i­tar a con­strução de edifí­cios de até sete andares na cidade. As reporta­gens denun­cia­ram mudanças legais con­sid­er­adas perigosas para um ter­ritório inseri­do inte­gral­mente den­tro de unidades de con­ser­vação ambi­en­tal, além da ausên­cia de amp­lo debate pop­u­lar sobre os impactos urbanís­ti­cos e ecológi­cos dessas medidas.

As denún­cias tam­bém apon­taram algo ain­da mais pre­ocu­pante: a aparente omis­são dos órgãos ambi­en­tais diante do avanço de pro­je­tos de ver­ti­cal­iza­ção incom­patíveis com a frag­ili­dade ecológ­i­ca da região. Em vez de exercerem papel rig­oroso na pro­teção dos ecos­sis­temas, diver­sas insti­tu­ições respon­sáveis pela fis­cal­iza­ção ambi­en­tal per­manece­r­am silen­ciosas enquan­to inter­ess­es econômi­cos avançavam sobre áreas sen­síveis. Foi jus­ta­mente a mobi­liza­ção de ambi­en­tal­is­tas, pesquisadores, moradores e mil­i­tantes soci­ais que pres­sio­nou o Min­istério Públi­co e o Poder Judi­ciário a inter­vir em difer­entes momen­tos para con­ter parte dess­es avanços.

Mais um prob­le­ma ambi­en­tal cada vez mais evi­dente em Ilha Com­pri­da é o avanço descon­tro­la­do de espé­cies exóti­cas inva­so­ras. A casua­r­i­na talvez seja o exem­p­lo mais sim­bóli­co dessa situ­ação. Intro­duzi­da orig­i­nal­mente como árvore orna­men­tal e uti­liza­da ao lon­go da orla, hoje ela já invade dunas, restin­gas e cam­pos ala­gadiços sazon­ais, alteran­do pro­fun­da­mente a dinâmi­ca ecológ­i­ca dess­es ambi­entes. Sua pre­sença mod­i­fi­ca car­ac­terís­ti­cas do solo, difi­cul­ta o cresci­men­to da veg­e­tação nati­va e impacta dire­ta­mente a bio­di­ver­si­dade local. Porém, ela não é a úni­ca ameaça veg­e­tal pre­sente no município.

A mamona vem se espal­han­do rap­i­da­mente por difer­entes áreas da ilha, espe­cial­mente em regiões de restin­ga e bor­das de ecos­sis­temas sen­síveis. Cap­ins exóti­cos orig­i­nal­mente asso­ci­a­dos à pecuária tam­bém avançam sobre áreas nat­u­rais, sub­sti­tuin­do espé­cies nati­vas e alteran­do o equi­líbrio ecológi­co, para servir de pas­to para os cav­a­l­os. Além dessas espé­cies mais visíveis, existe ain­da um número descon­heci­do de plan­tas exóti­cas de menor impacto ime­di­a­to, mas que con­tin­u­am sendo intro­duzi­das em jardins públi­cos e pri­va­dos sem qual­quer plane­ja­men­to ecológi­co ade­qua­do. A ausên­cia de políti­cas con­sis­tentes de con­t­role dessas espé­cies rev­ela mais uma vez a frag­ili­dade da gestão ambi­en­tal local.

Uma das medi­das mais efi­cientes para mit­i­gar os impactos ambi­en­tais provo­ca­dos pela espec­u­lação imo­bil­iária em Ilha Com­pri­da seria jus­ta­mente esta­b­ele­cer regras urbanís­ti­cas com­patíveis com a frag­ili­dade ecológ­i­ca do ter­ritório. Entre elas, a proibição da ven­da e desmem­bra­men­to de lotes menores que mil met­ros quadra­dos pode­ria reduzir sig­ni­fica­ti­va­mente a pressão sobre os ecos­sis­temas da ilha, per­mitin­do que ao menos 80% de cada pro­priedade per­manecesse com veg­e­tação nati­va preser­va­da ou em proces­so de recu­per­ação ambi­en­tal. Em vez de trans­for­mar cada ter­reno em uma área total­mente imper­me­abi­liza­da por con­cre­to, muros, gra­ma­dos e jardins exóti­cos, o municí­pio pode­ria incen­ti­var um mod­e­lo urbano inte­gra­do à pais­agem nat­ur­al da restin­ga. A arboriza­ção de ruas, praças e espaços públi­cos com espé­cies nati­vas for­t­ale­ce­ria corre­dores ecológi­cos urbanos, aju­dan­do aves, inse­tos polin­izadores e pequenos ani­mais a sobre­viverem mes­mo em áreas habitadas. Da mes­ma for­ma, imóveis já con­struí­dos pode­ri­am ser estim­u­la­dos a man­ter jardins com­pos­tos pri­or­i­tari­a­mente por plan­tas da flo­ra nati­va da Mata Atlân­ti­ca e da restin­ga, sub­sti­tuin­do espé­cies orna­men­tais exóti­cas que fre­quente­mente con­tribuem para dese­qui­líbrios ecológi­cos. Out­ra medi­da necessária seria restringir o cul­ti­vo de veg­e­tação exóti­ca no municí­pio, com exceção de espé­cies ali­men­tí­cias des­ti­nadas às hor­tas urbanas e à pro­dução de sub­sistên­cia. Essas ações não rep­re­sen­tari­am um obstácu­lo ao desen­volvi­men­to urbano, mas sim a con­strução de um mod­e­lo de cidade ambi­en­tal­mente respon­sáv­el, capaz de con­cil­iar mora­dia, qual­i­dade de vida e preser­vação dos ecos­sis­temas úni­cos que ain­da sobre­vivem em Ilha Comprida.

É jus­ta­mente den­tro desse con­tex­to de pressão imo­bil­iária, degradação ambi­en­tal e ausên­cia de fis­cal­iza­ção efe­ti­va que o Plano de Mane­jo da APA Ilha Com­pri­da se tor­na deci­si­vo. Mais do que um doc­u­men­to buro­cráti­co, o plano definirá regras conc­re­tas sobre uso do solo, ocu­pação urbana, preser­vação ambi­en­tal, ativi­dades econômi­cas per­mi­ti­das e for­mas de explo­ração ter­ri­to­r­i­al. Depen­den­do de como for elab­o­ra­do, poderá rep­re­sen­tar um instru­men­to real de pro­teção dos ecos­sis­temas e das comu­nidades tradi­cionais ou se trans­for­mar em mais uma fer­ra­men­ta para legit­i­mar inter­ess­es econômi­cos que enx­ergam Ilha Com­pri­da ape­nas como mer­cado­ria imobiliária.

A pop­u­lação pre­cisa com­preen­der que essa audiên­cia públi­ca não inter­es­sa ape­nas aos ambi­en­tal­is­tas ou espe­cial­is­tas em leg­is­lação ambi­en­tal. Ela inter­es­sa dire­ta­mente a todos que vivem na cidade, espe­cial­mente aos tra­bal­hadores mais pobres e às comu­nidades tradi­cionais que depen­dem do equi­líbrio ecológi­co para sobre­viv­er. Quan­do a restin­ga desa­parece, quan­do os manguezais são pres­sion­a­dos, quan­do os bre­jos são ater­ra­dos e quan­do a urban­iza­ção avança sem con­t­role, os impactos recaem prin­ci­pal­mente sobre aque­les que pos­suem menos poder econômi­co e político.

Defend­er o meio ambi­ente em Ilha Com­pri­da não sig­nifi­ca impedir desen­volvi­men­to. Sig­nifi­ca impedir que o ter­ritório seja destruí­do por um mod­e­lo pre­datório de ocu­pação que con­cen­tra ren­da, pri­va­ti­za pais­agens nat­u­rais e com­pro­m­ete o futuro cole­ti­vo da cidade. O ver­dadeiro desen­volvi­men­to sus­ten­táv­el depende da preser­vação ambi­en­tal, da val­oriza­ção das ativi­dades econômi­cas tradi­cionais, da pro­teção da bio­di­ver­si­dade e da par­tic­i­pação pop­u­lar nas decisões sobre o território.

A audiên­cia públi­ca da próx­i­ma sex­ta-feira pode definir muito mais do que nor­mas ambi­en­tais. Ela pode definir qual será o futuro de Ilha Com­pri­da nas próx­i­mas décadas. E diante de uma dis­pu­ta tão impor­tante, per­manecer em silên­cio tam­bém é uma for­ma de per­mi­tir que out­ros deci­dam o des­ti­no da cidade.