Evandro Pertence em homenagem a seu Pai

Evandro Pertence em homenagem a seu Pai

Em hom­e­nagem comovente a seu pai — o saudoso Min­istro Sepúlve­da Per­tence, exem­p­lo tran­scen­dente de éti­ca e ver­dadeira vocação jurídi­ca —, o advo­ga­do e pro­fes­sor Evan­dro Per­tence,  fun­dador do Insti­tu­to Vic­tor Nunes Leal, con­ta um pouco da relação mar­cante que teve com ele e com out­ros brasileiros e brasileiras ilus­tres que, em seu caráter gen­eroso, pleno de saber jurídi­co e de sen­ti­men­to de sol­i­dariedade e amizade, o Min­istro soube man­ter a seu redor.

Evan­dro Per­tence foi mem­bro da Comis­são de Pre­rrog­a­ti­vas do Con­sel­ho Fed­er­al da Ordem dos Advo­ga­dos do Brasil, Vice-Pres­i­dente da Comis­são de Defe­sa de Pre­rrog­a­ti­vas e Val­oriza­ção da Advo­ca­cia, além de Desem­bar­gador do Tri­bunal Region­al Eleitoral do Dis­tri­to Fed­er­al. É pós-grad­u­a­do em Dire­ito Proces­su­al Civ­il pelo Insti­tu­to Brasileiro de Dire­ito Proces­su­al — IBDP, e em Dire­ito Econômi­co e das Empre­sas pela Fun­dação Getúlio Var­gas — FGV.

 

“Meu pai, sem dúvida alguma, foi o homem mais marcante e admirável de toda a minha vida. Não só por ele, mas também pelas pessoas maravilhosas que trouxe à minha vida, e me ensinou a admirar independente de divergências ou convergências.

Tudo isso sem o desmerecer. Ele foi, em si, fantástico e extraordinário.

Com minha mãe, meu pai me ensinou o real significado do amor ao próximo. Me ensinou a viver a vida com gentileza, carinho, honestidade — inclusive a intelectual —, desprendimento material e comprometimento moral.

Meu pai — e nisso será imbatível — foi meu melhor amigo e o maior exemplo de amigo que conheci. Meu pai sempre foi sábio, e nunca prepotente.

Meu pai sem­pre se dedi­cou a saber das coisas, a escu­tar, a estu­dar, antes de diz­er qual­quer coisa; e nis­so foi um craque. Eu falo pelos cotove­los, mas ain­da estou aprendendo.

Meu pai me ensinou que viver em sociedade é respeitar as instituições, é entender que leis e regras, que cargos e encargos, são feitos para a convivência humana, pacífica. Que todos podem divergir, mas que em momentos em que a força prepondera, nosso lugar é do outro lado das metralhadoras.

Meu pai me ensinou que a fortuna é o que conquistamos e o que a vida nos dá. Mas que a vida é sempre maior que a fortuna, e o que vale na vida é o que a gente faz com ela. Que riqueza é meio, não fim. Que o que importa é realizar aquilo que acreditamos, o que somos. Não o que temos.

Não que meu pai tenha sido displicente em cuidar de dar condições aos filhos e netos. Meu pai nunca foi displicente com nenhuma das nossas necessidades, e até o fim da vida se preocupou, e muito, com a nossa condição e com como nos deixaria. Mas o que ele nos legou de mais importante foi o exemplo. E a responsabilidade de honrar o nome que ele nos deixou.

Meu pai está certamente entre os maiores humanistas que eu conheci.

Meu pai nunca diferenciou pessoas por status ou posições de poder. De Presidentes da República ao menino que o interpelou à porta de um aeroporto, no Rio, e lhe mendigou um dólar — ao que ele respondeu, “Ih, globarizaram o menino — , meu pai sempre tratou a todos com a mesma delicadeza, e destemor. Foi por vezes admiravelmente rabugento com pequenas e grandes coisas. Mas sempre apaixonantemente carinhoso. Se me esforçar, certamente vou achar um ou outro inimigo que apareceram em sua vida; nenhum que tenha reservas ao homem, mas só os que transformaram em ódio divergências políticas ou ideológicas. E nenhum que mereça ser referido.

Meu pai sempre defendeu o que pensava, mas nunca impôs sua posição, nem deixou de respeitar posições contrárias.

Meu pai me ensinou que a vida pública é pública. Não privada. É para a coletividade e para a construção de instituições que permitam a convivência entre divergentes.

Não que isso tenha o significado de abdicar do compromisso pessoal com o exercício do poder. E meu pai viveu o poder intensamente, e teve honestidade, competência e dignidade de se entregar e ao cargo àquilo que acreditava, sem nunca ter ultrapassado os limites morais, legais e constitucionais de suas atribuições.

Meu pai foi um grande cidadão do mundo, um grande brasileiro e um mineiro brasiliense apaixonado.

Por falar nisso, meu pai foi um grande atleticano, assim como eu e meus filhos o somos. E é por isso que, como ele continua por aí, podem ter certeza que o fato de ele ter ido, não significa que não vá mais sofrer. A gente, os atleticanos, torcemos contra o vento. Mas se não for sofrido, não é Galo. Podem ter certeza de que, em todos os jogos do Galo, meu pai vai estar sentado ao meu lado, torcendo, vibrando, curtindo e reclamando. Ele, como eu, sempre gostou de jogo bonito, bem jogado. Por isso, como Darcy Ribeiro, nos orgulhamos de alguns de nossos fracassos. Mas, nesses, nunca gostaríamos de estar entre os vencedores.

Meu pai é meu Norte. E o Norte de toda a minha família. E, se também tiver sido o Norte de qualquer um de vocês, não se preocupem. O Norte continua no mesmo lugar.

Neste momento, imagino que esteja descansando; seja pelas agruras da passagem, seja pela festa de aniversário da mamãe no dia 3 de julho, quando foi sepultado. Certamente lá estiveram seus pais, seu irmão, minha mãe, Modesto Justino de Oliveira, Victor Nunes Leal e Gildinha, Evandro Lins e Silva, José Aparecido de Oliveira, SigBão, Luís Carlos Sigmaringa, Vera Brant, Juscelino Kubischeck, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Fernado Brant, Tom Jobim, Hélio Saboya, Tetê, Octávio Lobo, Bento Ribeiro, Alysson Mitraud, Jorjão Ferreira, José Gerardo Grossi, D’Allembert Jacout, Evaristo e Renato de Moraes, meu tio Jadir, minha avó materna e meus outros tios que já se foram; e tantas outras gentes queridas, tantos outros incontáveis amigos queridos, que, só por isso, me é impossível nominar a todos.

E assim, meu pai seguiu para as suas novas aventuras. Ainda vai descansar mais um pouco. Mas já, já, vai estar em todos nós. Não como tristeza, mas como exemplo; fazendo com que a gente, também, faça muita diferença nesse mundo.

E já, já — eu garanto —, em carne ou em espírito — nós, Pertences, não somos dados a dogmas ou certezas —, vai estar entre nós aprontando das suas tão divertidas, elegantes e sagazes galhardias. E lutando, com todas as suas forças, por um mundo mais justo.

Viva o meu paizinho! Viva o nosso Buana! Viva o nosso Maestro Soberano! (Punhos em riste, à la Rei, Reinaldo, gesto Black Power do maior artilheiro do Galo de todos os tempos)

Obrigado Frei Vicente! Meu pai nunca foi tão bem recebido na Casa de Deus.

Obrigado a todos pelo carinho.”

Responsabilidade Penal da Atividade Empresarial

Responsabilidade Penal da Atividade Empresarial

Em arti­go pub­li­ca­do no Jor­nal Val­or Econômi­co, as Advo­gadas Sônia Cochrane Ráo e Natasha do Lago anal­isam  jurisprudên­cia e atu­ação do Min­istério Públi­co no tema da respon­s­abil­i­dade penal de empre­sas e de seus diri­gentes, advertin­do para a neces­si­dade de aban­donar as con­cepções sim­plis­tas e apres­sadas, em prol de uma com­preen­são mais séria, tan­to do pon­to de vista do esta­do da arte da dout­ri­na brasileira e inter­na­cional, quan­to da per­spec­ti­va garan­tista de dire­itos e deveres, que impeça a con­tinuidade do come­ti­men­to de injustiças, com base em preconceitos.

 

Sônia Ráo, for­ma­da em Dire­ito pela Uni­ver­si­dade de São Paulo, na tur­ma de 1983, é uma das mais respeitadas crim­i­nal­is­tas brasileiras, sendo sócia de Ráo e Lago Advo­ga­dos des­de 1990.

 

 

Natasha do Lago é doutoran­da e mestre em Dire­ito Penal pela FD.USP, Pro­fes­so­ra do Insper e Con­sel­heira e Coor­de­nado­ra da Comis­são de Dire­itos e Pre­rrog­a­ti­vas da OAB, Seção de São Paulo.

 

O arti­go pode ser lido no Val­or Econômi­co, neste link,  sendo tran­scrito breve tre­cho a seguir.

Crim­i­nal­iza­ção da ativi­dade empre­sar­i­al no Brasil

Respon­s­abil­i­dade penal em empre­sas sem­pre foi tema con­tro­ver­tido nos tri­bunais brasileiros. Seja dev­i­do a releituras apres­sadas da famiger­a­da “teo­ria do domínio do fato” — cri­a­da por jurista alemão para lidar com a respon­s­abil­i­dade de supe­ri­ores pelos crimes prat­i­ca­dos por sub­or­di­na­dos durante o nazis­mo -, seja por pre­sunção de onis­ciên­cia imprat­icáv­el em grandes corporações.

Empresários de diver­sos cal­i­bres são, cada vez mais, força­dos a con­sid­er­ar riscos de dire­ito penal ao assumirem funções. Isso sem con­sid­er­ar os diver­sos profis­sion­ais que, con­hece­dores dos critérios equiv­o­ca­dos que podem levá-los a respon­der a proces­sos infun­da­dos, pref­er­em não assumir posições de lid­er­ança, crian­do um mecan­is­mo de incen­ti­vo rever­so que con­traria a lóg­i­ca empresarial.

Por definição, ape­nas responde por crime aque­le que prat­i­ca ação ou omis­são puníveis, ou con­cor­ra de algum modo para a sua práti­ca, admitin­do-se a respon­s­abil­i­dade da pes­soa jurídi­ca somente em crimes ambientais.

Não é qual­quer omis­são, todavia, que pos­sui o efeito de ger­ar respon­s­abil­i­dade penal: somente será rel­e­vante a que par­tir de pes­soas que, ten­do con­hec­i­men­to da situ­ação que deman­da inter­venção, pode­ri­am e dev­e­ri­am agir para evi­tar o resul­ta­do. Esse dev­er de ação, por sua vez, incumbe àque­les que pos­suem obri­gação legal de cuida­do, pro­teção ou vig­ilân­cia, assumem a respon­s­abil­i­dade de impedir o crime ou cri­am o risco de sua ocorrência.

(…)

A práti­ca cor­rente de acusar exec­u­tivos, empresários e acionistas com base em seus car­gos, enfim, é tema que pre­cisa ser debati­do com a seriedade e sen­si­bil­i­dade necessárias pelos tri­bunais, sem soluções apres­sadas que sujeit­em indefinida­mente os acu­sa­dos às tor­men­tas de um proces­so penal.”

 

Camilo Vannuchi homenageia José Celso Martinez Corrêa

Camilo Vannuchi homenageia José Celso Martinez Corrêa

Em comovente depoi­men­to, o escritor Cami­lo Van­nuchi, na for­ma de uma car­ta, pres­ta mere­ci­da hom­e­nagem ao grande ator, dra­matur­go e ence­nador brasileiro José Cel­so Mar­tinez Cor­rêa, fale­ci­do de modo trági­co, no dia seis de jul­ho de 2023.

Van­nuchi é jor­nal­ista, pesquisador,  mestre e doutor em Ciên­cias da Comu­ni­cação pela Uni­ver­si­dade de São Paulo, pro­fes­sor de Jor­nal­is­mo da Fac­ul­dade Cásper Líbero, col­u­nista do por­tal UOL, escritor com ênfase em dire­itos humanos, autor da biografia Marisa Letí­cia Lula da Sil­va e do livro-reportagem “Vala de Perus, uma biografia”, final­ista no Prêmio Jabu­ti de 2021.

Leia a seguir.

“Caro Zé Celso:

Laroyê! O Bixiga anoitece em compasso de espera. Lua cheia, rua vazia. Há algo em suspensão entre o Saracura e o Itororó, como no exato instante em que as luzes se apagam e um cajado bate três vezes no tablado antes de irromper o primeiro gesto – o primeiro acorde, a primeira fala. Poucos respiram. Ninguém arrisca se mexer na cadeira. Um rangido de molas seria um atrevimento. Um estalo na madeira, um despropósito. Você é capaz de imaginar?
Os jornais, Zé, contam que botaram teu sangue para filtrar. Vê se pode. Que vinho é esse que requer destilação? Frio de rachar em SamPã e você com ventilação mecânica. Ventilação y destilação y medicação y torcida. Invocação. Orixás e Fênix.
Porra, Zé, 53% do corpo queimado? Até ontem, era você quem tocava fogo em tudo. Carbonário, incendiava palco e plateia no sambódromo de Lina, o teatro-avenida premiadíssimo da Rua Jaceguai, e inflamava as estruturas: a arte, a cultura, a tradição, mas também a pólis e a política. Demolia em labaredas o que era velho, cafona, careta, reacionário, e preparava o novo, promovia a liberdade, anunciava a re-evolução.
Foi em 1966 que você encontrou o antigo Oficina em chamas. As investigações sobre o acidente-porra-nenhuma restaram inconclusivas, mas você sempre atribuiu a ação a grupos paramilitares de direita, possivelmente o mesmo comando de caça aos comunistas que depredaria o teatro Galpão e espancaria o elenco da peça Roda Viva dois anos depois. Como Fênix, o Oficina renasceu das cinzas no ano seguinte. E seria novamente refeito nos anos 1990.
Você também foi tantas vezes Fênix, Zé. Renasceu com o teatro redivivo. Foi preso e torturado em 1974 e ressurgiu após quatro anos de exílio em Portugal. Reergueu-se após o assassinato de seu irmão, Luís Antonio, estrangulado e atingido por mais de cem facadas, aos 37 anos, no Rio de Janeiro, às vésperas do Natal de 1987.
Reinventou-se ainda muitas vezes: quando um barão da mídia fez o possível e o impossível para cercar e implodir seu bunker-espetáculo, quando faltou dinheiro para o dia a dia e também para cobrir despesas de saúde, quando uma pandemia global se aliou ao presidente genocida para espalhar o terror na cidade dos homens.
“Resistir para re-existir”, foi você mesmo quem me ensinou, quando nos encontramos no palco da Casa de Portugal para gritar por democracia no auge do golpeachment.
Fênix, ave-teimosia, rogai por nós.
Amigo Zé Celso, faz dez anos que conversei com você pela primeira vez. Em 2013, coube a mim a honrosa tarefa de organizar um livro de retratos do Bob Sousa que seria publicado naquele mesmo ano pela Editora Unesp. Entre os muitos trabalhadores do teatro fotografados por ele, uma das imagens mais extraordinárias era sua, justamente a que fechava o livro – teatro de A a Z, o autor costumava brincar, referindo-se ao fato de que a primeira foto era de Antunes Filho, e a última, de Zé Celso. Um retrato de perfil, magnânimo, no qual se destacava um narigão adunco e proeminente. Combinei com Bob que colheria comentários de pelo menos dez dos retratados e tratei de te procurar.
Fomos nos reencontrar em 2016. Agora, eu era membro da Comissão da Verdade da Prefeitura de São Paulo e, por acaso, topei com Eduardo Suplicy, então secretário municipal de Direitos Humanos, na plateia do Oficina. Partiu dele a iniciativa de nos apresentar: você quis me contar sua história de perseguido, preso, exilado e anistiado; e eu quis pedir o teatro para fazermos ali uma entrega pública do relatório final. Não rolou, nem uma coisa nem a outra. Dois anos depois, fui coautor de um livro sobre o papel da mídia no golpe contra Dilma e, agora sim, tivemos a honra de apresentá-lo no Oficina. Semanas depois, Lula foi preso e articulamos a publicação de uma carta sua para o mais famoso inquilino da Polícia Federal. “Tua prisão e consequente retirada do pleito de 2018 foi o maior de todos os GOLPE$ q o Brazyl sofreu”, você escreveu. “Por isso me recuso a te chamar de EX-PRESIDENTE”.
Dali em diante, tornei-me somente público, um entusiasmado espectador, tanto na nova versão de Rei da Vela, cinquenta anos após a montagem original, quanto em Roda Viva, ambas reencenadas num tempo de guerra, um tempo sem sol.
É possível que eu tenha ajudado a viabilizar a encenação de Roda Viva, mas este é assunto para outra coluna.
Zé, você tem sido um dos caras mais coerentes que eu já conheci. Deliciosamente coerente. Lisergicamente coerente. Vibramos a cada batalha y a cada conquista, a cada vaquinha y a cada liminar. Voltamos a respirar em janeiro, Zé. Dias atrás, você se casou com o Marcelo! Que alegria. Como é bom te ver, aos 85, irrequieto, irreverente, imprescindível.
Volta logo, Zé Celso. Vem ser Fênix outra vez no Bixiga, no tablado, em SamPã.”

Homenagem a Sepulveda Pertence

Homenagem a Sepulveda Pertence

Nasci­do na cidade históri­ca de Sabará, do Ciclo do Ouro brasileiro, o Min­istro José Paulo Sepúlve­da Per­tence, for­mou-se em Dire­ito, em 1960, na fac­ul­dade mais anti­ga da então Uni­ver­si­dade de Minas Gerais, hoje, Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais. Como mel­hor estu­dante de sua tur­ma, rece­beu a Medal­ha Rio Bran­co da Fac­ul­dade de Dire­ito, cur­so inau­gu­ra­do em 1892, na tam­bém históri­ca Ouro Pre­to, trans­ferindo-se para Belo Hor­i­zonte seis anos depois.

Foi Pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade de Brasília, na qual obteve o títu­lo de Mestre em Dire­ito. Desem­pen­hou as funções de Procu­rador-Ger­al da Repúbli­ca, Procu­rador-Ger­al Eleitoral, Secretário Jurídi­co do Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al, no gabi­nete do Min­istro Evan­dro Lins e Sil­va.

Foi Min­istro do Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al e do Tri­bunal Supe­ri­or Eleitoral, ten­do exer­ci­do a Presidên­cia de ambos os Tribunais.

Como jurista, dedi­cou-se às questões con­sti­tu­cionais, foi autor de inúmeros livros e pro­postas de aper­feiçoa­men­to do sis­tema jurídi­co, ten­do sido mem­bro da Comis­são Affon­so Ari­nos, que elaborou Antepro­je­to da Con­sti­tu­ição para a Con­sti­tu­inte de 1987/1988.

Foi mem­bro da Comis­são de Éti­ca Públi­ca da Presidên­cia da República.

Na Advo­ca­cia, fez parte, na juven­tude, do escritório do Min­istro Vitor Nunes Leal. Tan­to Nunes Leal quan­to Evan­dro Lins e Sil­va foram ile­git­i­ma­mente cas­sa­dos pela ditadu­ra civ­il-mil­i­tar de 1964/1986.

Sepúlve­da Per­tence foi um dos defen­sores jurídi­cos do atu­al Pres­i­dente Luís Iná­cio Lula da Sil­va, quan­do proces­sa­do, de modo incon­sti­tu­cional, e con­de­na­do, ilegalmente.

Nas palavras do Pres­i­dente da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, Alfre­do Attié, Tit­u­lar da Cadeira San Tia­go Dan­tas, “as lições e o exem­p­lo de éti­ca de vida públi­ca e de cidada­nia de Sepúlve­da Per­tence per­manecerão sem­pre vivos, inspi­ran­do o desen­ro­lar do proces­so civ­i­liza­tório do Dire­ito em nos­so País.

Sepúlve­da Per­tence foi um dos maiores defen­sores dos Dire­itos Humanos e das Liber­dades Públi­cas no Brasil, des­de a juven­tude, quan­do par­ticipou do movi­men­to estu­dan­til, ten­do sido vice-pres­i­dente da União Nacional de Estu­dantes.

Leia, ain­da, a hom­e­nagem do Advo­ga­do Evan­dro Per­tence a seu pai, aces­san­do este link.

Roque Carrazza critica a Reforma Tributária em entrevista ao Estadão

Roque Carrazza critica a Reforma Tributária em entrevista ao Estadão

Em impor­tante depoi­men­to ao jor­nal O Esta­do de S. Paulo, o jurista Roque Antônio Car­raz­za, Pro­fes­sor Tit­u­lar de Dire­ito Trib­utário da Pon­tif­í­cia Uni­ver­si­dade Católi­ca de São Paulo — PUC.SP, crit­i­ca a refor­ma trib­utária aprova­da no plenário da Câmara dos Dep­uta­dos, como Emen­da Con­sti­tu­cional, no dia seis de jul­ho de 2023, sobre­tu­do por seu caráter de negação do fed­er­al­is­mo brasileiro. Para o Acadêmi­co Tit­u­lar da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, a refor­ma aca­ba por tornar o Brasil um Esta­do unitário.

Leia, a seguir, a entre­vista à jor­nal­ista Beat­riz Bul­la.

Pro­fes­sor tit­u­lar da Fac­ul­dade de Dire­ito da PUC-SP e jurista refer­ên­cia no estu­do de Dire­ito Trib­utário, o advo­ga­do Roque Anto­nio Car­raz­za faz sérias críti­cas à pro­pos­ta de refor­ma trib­utária em votação na Câmara dos Dep­uta­dos nes­ta quin­ta-feira, 6. Para o espe­cial­ista no assun­to, a refor­ma igno­ra a Con­sti­tu­ição pois “aca­ba com a fed­er­ação”, ben­e­fi­cia ape­nas a indús­tria e o setor finan­ceiro e não dev­e­ria ser apre­ci­a­da de for­ma apres­sa­da no Con­gres­so. “Vale aqui, a sabedo­ria pop­u­lar, bem traduzi­da no provér­bio ‘quem decide depres­sa se arrepende deva­gar’”, afir­ma o trib­u­tarista, nes­sa entre­vista ao Estadão.

Car­raz­za, que é autor de diver­sos livros sobre o assun­to, como o Cur­so de Dire­ito Con­sti­tu­cional Trib­utário, que está em sua 34ª edição, tam­bém afir­ma que é uma “maciça pro­pa­gan­da enganosa” a ideia de que todos pagarão menos impos­tos e diz que a ideia de um impos­to sobre val­or agre­ga­do dual é fal­sa, pois a União terá mais poder que Esta­dos e municípios.

“Esse sub­sti­tu­ti­vo, a pre­tex­to de veic­u­lar uma refor­ma trib­utária necessária e lou­váv­el, encer­ra um ver­dadeiro pro­je­to de poder, qual seja, o de sub­me­ter os Esta­dos, os municí­pios e o Dis­tri­to Fed­er­al, ao jugo da União, trans­for­man­do o Brasil, na práti­ca, em um esta­do unitário”, afir­ma Carrazza.

Mudança foi ante­ci­pa­da pelo dep­uta­do Aguinal­do Ribeiro em entre­vista ao ‘Estadão’

O sr. é bas­tante críti­co à atu­al refor­ma trib­utária em votação na Câmara. Qual o prin­ci­pal problema?

As nor­mas jurídi­cas mais impor­tantes se encon­tram na Con­sti­tu­ição. De fato, ela é a Lei Maior, a matriz de todas as man­i­fes­tações nor­ma­ti­vas do Esta­do. Em matéria trib­utária, a Con­sti­tu­ição brasileira foi extrema­mente min­u­ciosa. Graças à Con­sti­tu­ição, nós con­tribuintes só podemos ser trib­u­ta­dos den­tro dos parâmet­ros con­sti­tu­cionais. Muito bem. No sub­sti­tu­ti­vo da PEC 45, que o dep­uta­do Arthur Lira (PP-AL) quer aprovar o mais rap­i­da­mente pos­sív­el, foi esque­ci­da essa ideia fundamental.

Mas a dis­cussão sobre a refor­ma está colo­ca­da há décadas e a base do tex­to vem sendo dis­cu­ti­da no Con­gres­so des­de 2019. Isso não seria suficiente?

A meu ver, não está sendo obser­va­do o dev­i­do proces­so leg­isla­ti­vo de refor­ma con­sti­tu­cional. As PECs devem ser exam­i­nadas pela Comis­são de Con­sti­tu­ição e Justiça e, depois, aprovadas pela Comis­são Espe­cial no pra­zo de quarenta sessões. Ora, aprova­da dessa for­ma foi a PEC 45 e, não, o sub­sti­tu­ti­vo, que é, em rig­or, uma nova PEC. Somente essa injuridi­ci­dade, a meu ver, invi­a­bi­liza a sua aprovação.

Por que a ideia de que a Con­sti­tu­ição é a Lei Maior foi igno­ra­da no tex­to atual?

Na práti­ca, ela aca­ba com a fed­er­ação. A refor­ma trib­utária, se aprova­da da maneira como está pos­ta no sub­sti­tu­ti­vo da PEC 45, reti­rará autono­mia finan­ceira dos Esta­dos, dos municí­pios e do Dis­tri­to Fed­er­al. Ora, a autono­mia finan­ceira é o pres­su­pos­to necessário para a existên­cia das autono­mias políti­ca e jurídica.

Vale aqui lem­brar que o princí­pio fed­er­a­ti­vo é “cláusu­la pétrea”, ou seja, não pode ser amesquin­hado, muito menos aboli­do, nem mes­mo por meio de emen­da constitucional.

A cri­ação de um IVA dual, com o IBS des­ti­na­do a Esta­dos e municí­pios, não resolve essa questão?

O fal­so IBS dual será arrecada­do pela União e, depois, por ela repas­sa­do. No entan­to, a União poderá, sob pre­tex­tos vários, como quase sem­pre acon­tece, retardá-los, espe­cial­mente para as pes­soas políti­cas gov­er­nadas por inte­grantes de par­tidos políti­cos de oposição ao gov­er­no cen­tral. Sem autono­mia finan­ceira, essas pes­soas políti­cas terão que ped­in­char as beness­es da União para sobre­viv­er. Serão, na práti­ca, reduzi­das à condição de meros ter­ritórios fed­erais, a exem­p­lo dos que exi­s­ti­ram até serem aboli­dos com o adven­to da atu­al Constituição.

E nem se diga que haverá fun­dos e câmaras de com­pen­sação para garan­tir tais repass­es. O assun­to será reg­u­la­do por uma lei com­ple­men­tar nacional, vota­da, pois, pelo Con­gres­so. As reuniões que se fiz­erem, com base nes­sa lei com­ple­men­tar nacional, terão, de um lado, a União e, do out­ro, os rep­re­sen­tantes dos mais de 5.500 Municí­pios, dos 27 Esta­dos e do Dis­tri­to Fed­er­al. O sub­sti­tu­ti­vo, não indi­ca se todos terão voz e voto ou, no caso de serem ape­nas alguns, o modo como serão escol­hi­dos. Não é pre­ciso grande esforço int­elec­tu­al para se con­cluir que a União assumirá o total domínio do assun­to, o que fatal­mente entrará em rota de col­isão com os pos­tu­la­dos da Fed­er­ação brasileira.

O sr. tam­bém argu­men­ta que a refor­ma dá à União uma “caixa vazia”. O que isso significa?

O sub­sti­tu­ti­vo descon­sti­tu­cional­iza parte do nos­so sis­tema trib­utário. Os con­tribuintes, na atu­al Con­sti­tu­ição, encon­tram as regras-matrizes dos trib­u­tos que podem ser obri­ga­dos a supor­tar. Tro­can­do a ideia em miú­dos, as com­petên­cias trib­utárias das pes­soas políti­cas se encon­tram sem­pre lim­i­tadas na Con­sti­tu­ição por um ver­bo e um com­ple­men­to — exem­p­lo: auferir rendi­men­tos, prestar serviços, adquirir imóv­el. Graças a isso, os con­tribuintes sabem, de antemão, que, para serem com­peli­dos a pagar o impos­to sobre a ren­da, dev­erão auferir rendi­men­tos, para serem com­peli­dos a pagar o ISS, prestar serviços, para serem com­peli­dos a pagar o ITBI, adquirir um imóv­el, e assim por diante.

O IBS não está estru­tu­ra­do dessa for­ma. O sub­sti­tu­ti­vo não lhe apon­ta nem o ver­bo nem o com­ple­men­to. Dá de pre­sente à União uma ver­dadeira “caixa vazia”, na qual o leg­is­lador com­ple­men­tar nacional tudo poderá colo­car. O IBS poderá ser exigi­do de quem vender mer­cado­rias, de quem prestar serviços, de quem ced­er onerosa­mente o dire­ito de uso de um bem, de quem realizar um arren­da­men­to mer­can­til, etc. O con­tribuinte ficará sob o jugo da inse­gu­rança e da incerteza, porque não lhe será garan­ti­do o dire­ito de deixar de recol­her trib­u­to que este­ja fora dos parâmet­ros constitucionais.

Deploro a maciça pro­pa­gan­da enganosa que está sendo fei­ta, no sen­ti­do de que, com a refor­ma, todos pagarão menos trib­u­tos. Não é ver­dade. Só as indús­trias e o setor finan­ceiro serão ben­e­fi­ci­a­dos com a refor­ma. O setor agropecuário, que é o grande respon­sáv­el pelo equi­líbrio da nos­sa bal­ança econômi­ca, será alta­mente oner­a­do. O mes­mo ocor­rerá com o setor com­er­cial. Isso para não falar do setor de serviços, que empre­ga a maior parte da nos­sa mão de obra e responde pela maior parte do nos­so PIB.

Atual­mente, o setor de serviços paga, em média, a títu­lo de ISS, 3% do preço de cada serviço presta­do. Se a refor­ma trib­utária vin­gar, o ISS será aboli­do e o setor pagará, a títu­lo de IBS, 25% do preço de cada serviço presta­do. O gov­er­no fed­er­al argu­men­ta que, com os descon­tos, o mon­tante do trib­u­to chegará, em média, a 10% do preço de cada serviço presta­do, o que, diga-se de pas­sagem, é uma falá­cia, porque o setor, não poden­do abater os gas­tos com mão de obra, terá pou­cas deduções a faz­er. Mas, mes­mo que se aceite a ver­são ofi­cial, o cer­to é que 10% rep­re­sen­tam mais do que o trip­lo dos 3% que o setor paga.

A pre­tex­to de ala­van­car a indus­tri­al­iza­ção do País, serão prej­u­di­ca­dos todos os out­ros setores da econo­mia nacional. E, pior, os con­tribuintes pes­soas físi­cas serão ain­da mais oner­a­dos pela já insu­portáv­el car­ga fiscal.

Além da questão sobre o IBS, há out­ros pon­tos que reforçam o poder da União, na avali­ação do sr.?

O sub­sti­tu­ti­vo tam­bém pre­vê que o impos­to sele­ti­vo incidirá sobre bens e serviços prej­u­di­ci­ais à saúde e ao meio ambi­ente, nos ter­mos da lei ordinária que a União vier a edi­tar. O leg­is­lador ordinário poderá, por­tan­to, reg­u­lar o assun­to como lhe aprou­ver, já que o sub­sti­tu­ti­vo não fixa parâmet­ros para que sejam apon­ta­dos tais bens e serviços nocivos.

Não é difí­cil perce­ber que, com esse ver­dadeiro “cheque em bran­co”, a União terá poderes para con­tro­lar quase todos os trib­u­tos do País, cujo mon­tante ultra­pas­sa 90% da arrecadação nacional, o que, sem dúvi­da, é alta­mente censurável.

Esse sub­sti­tu­ti­vo, a pre­tex­to de veic­u­lar uma refor­ma trib­utária necessária e lou­váv­el, encer­ra um ver­dadeiro pro­je­to de poder, qual seja, o de sub­me­ter os Esta­dos, os municí­pios e o Dis­tri­to Fed­er­al, ao jugo da União, trans­for­man­do o Brasil, na práti­ca, em um esta­do unitário.

“Não é tão fácil se separar da extrema direita”

“Não é tão fácil se separar da extrema direita”

No arti­go a seguir, impor­tante reflexão, pub­li­ca­da orig­i­nal­mente em Brasil de Fato, o Pro­fes­sor e Pesquisador Jorge Bran­co empreende uma críti­ca da ten­ta­ti­va de o dis­cur­so con­ser­vador, exem­pli­fi­ca­do em edi­to­r­i­al do jor­nal O Esta­do de S. Paulo, desvin­cu­lar-se da práti­ca e da retóri­ca da extrema-dire­i­ta brasileira, vin­cu­la­da ao bolsonarismo.

Para o cien­tista social e Dire­tor Exec­u­ti­vo da Revista Democ­ra­cia e Dire­itos Fun­da­men­tais, pub­li­cação do Insti­tu­to Novos Par­a­dig­mas, o con­ser­vadoris­mo sem­pre esteve conec­ta­do com lib­er­al­is­mo, que jamais hes­i­tou em pre­scindir da democ­ra­cia, em nome da defe­sa da propriedade.

 

“Não é tão fácil se separar da extrema-direita”

Jorge Branco

O jor­nal O Esta­do de São Paulo pub­li­cou, em 3 de jul­ho de 2023, um edi­to­r­i­al, cujo títu­lo é A rein­venção da dire­i­ta brasileira. Em tal edi­to­r­i­al, o jor­nal – que des­de a Repúbli­ca Vel­ha se man­tém per­sis­ten­te­mente vin­cu­la­do às oli­gar­quias e seus sucedâ­neos – defende a tese de que a recente dec­re­tação de ineleg­i­bil­i­dade de Jair Bol­sonaro seria uma aber­tu­ra de opor­tu­nidade políti­ca para que a dire­i­ta ver­dadeira­mente con­ser­vado­ra renasça.

Con­sid­era, o edi­to­r­i­al, que Jair Bol­sonaro não é uma expressão do que seria um con­ser­vadoris­mo ver­dadeiro. Deduz-se pelo tex­to que o con­ser­vadoris­mo estaria vin­cu­la­do ao lib­er­al­is­mo e este, por sua vez, aparta­do das ide­olo­gias. As ide­olo­gias, aliás, teri­am cau­sa­do o grave prob­le­ma da dis­torção do con­ceito de liberalismo.

Pugna por algum tipo de revisão autocríti­ca do con­ser­vadoris­mo brasileiro “recon­hecen­do sua com­placên­cia em relação às desigual­dades soci­ais”. Afir­ma que os pilares desse ver­dadeiro con­ser­vadoris­mo seri­am os val­ores do que seria a iden­ti­dade do lib­er­al­is­mo: plu­ral­i­dade da sociedade, pro­gres­so por meio de refor­mas, descon­fi­ança da con­cen­tração de poder e defe­sa dos dire­itos pes­soais, políti­cos e de propriedade.

O Estadão lança mão de um bati­do, mas nem por isso inefi­caz, estrat­a­ge­ma ide­ológi­co. Des­cre­den­ciar como ide­olo­gia todas as asserti­vas, inclu­sive cien­tí­fi­cas, que não foram de seu agra­do ou con­veniên­cia. A supe­ri­or­i­dade de seu sis­tema de con­ceitos viria, não da justiça social tão opor­tu­na­mente incluí­da no rol das pre­ocu­pações do con­ser­vadoris­mo defen­di­do no edi­to­r­i­al, mas da deside­olo­gia do lib­er­al­is­mo, de sua tecnicidade.

Ess­es argu­men­tos não são nada novos[1], porém, con­tin­u­am impactan­do muito setores médios, base social do con­ser­vadoris­mo. O apoio ao que hoje podemos chamar de “lava­jatismo”, nos referindo a ele como uma cor­rente políti­ca, expres­sa o ape­lo que a ideia de higi­en­iza­ção da políti­ca tem nos setores médios e poten­cial­mente con­ser­vadores. Con­tu­do, essa higi­en­iza­ção da políti­ca é em ver­dade uma rejeição a qual­quer ideia de igual­dade, os seja de ascen­são econômi­ca e políti­ca dos setores mais empo­bre­ci­dos da sociedade.

Os argu­men­tos do Estadão são repet­i­tivos. A democ­ra­cia nec­es­sari­a­mente pre­cis­aria ser dirigi­da pelo con­ser­vadoris­mo para ser efi­ciente e garan­tir a plu­ral­i­dade e a pro­priedade e os dire­itos pessoais(sic). Con­tu­do, essa não é a real­i­dade nem a história. Em via de regra, quan­do a democ­ra­cia per­mite que “os de baixo” se movi­mentem e con­quis­tem ou con­soli­dem seus dire­itos pes­soais através dos dire­itos soci­ais, resul­tan­do por óbvio em uma divisão maior da acu­mu­lação de cap­i­tal, con­ser­vadores não hesi­tam em romper a democ­ra­cia para garan­tir o poder político.

O esforço de se dis­tan­ciar do “ver­dadeiro con­ser­vadoris­mo” da extrema-dire­i­ta, feito pelo Estadão é irre­al. Não adi­anta car­ac­teri­zar Bol­sonaro como dem­a­gogo. Ao con­trário, ao eleger esse adje­ti­vo como o prin­ci­pal, demon­stra que o ina­ceitáv­el é a rup­tura da hier­ar­quia, e que o con­ser­vadoris­mo real­mente exis­tente não tem vín­cu­los tão fortes assim com a democ­ra­cia, pois não tol­era as pos­si­bil­i­dades dis­trib­u­tivis­tas que ela pode conter.

A extrema-dire­i­ta, assim, não pode ser con­sid­er­a­da um raio em céu azul. A extrema-dire­i­ta ao cre­den­ciar-se como o par­tido do rea­cionar­is­mo, da rejeição e com­bate ao mun­do pós-mod­er­no e a plêi­ade de des­or­dem e rup­tura que pode pro­duzir, tor­na-se a for­ma mel­hor acaba­da do conservadorismo.

A estraté­gia dos con­ser­vadores Franz von Papen e Kurt von Schle­ich­er (1932–1933) de entre­gar o gov­er­no a Adolf Hitler não se deu pela força do Par­tido Nazista — como fazem crer algu­mas nar­ra­ti­vas apres­sadas — mas para con­ter o cresci­men­to dos movi­men­tos de tra­bal­hadores e de esquer­da na Ale­man­ha. Os con­ser­vadores não titubear­am em abdicar da democ­ra­cia para man­ter a propriedade.

O que o Estadão propõe é irre­al. Um lib­er­al­is­mo com inclusão social é uma con­tradição em ter­mos. Não será com um ou out­ro edi­to­r­i­al que o con­ser­vadoris­mo e o lib­er­al­is­mo brasileiro apa­garão seu vín­cu­lo fun­cional com a extrema-dire­i­ta e, tam­pouco, há evidên­cias sól­i­das que o farão no futuro próx­i­mo. Nun­ca se sabe onde vai parar a democ­ra­cia.

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[1] Ficaram muito famosos a par­tir dos anos 1990 com a super­ex­posição de Fran­cis Fukuya­ma e se seus arti­gos “O fim da história?” e ‘O fim da história e o últi­mo homem”.

Tempos curtos e longos, Mujica e a Frente Ampla exemplar do Uruguai

Tempos curtos e longos, Mujica e a Frente Ampla exemplar do Uruguai

O arti­go a seguir é de auto­ria do jurista e estadista Tar­so Gen­ro, e foi pub­li­ca­do orig­i­nal­mente em SUL 21.

Tempos Curtos e Longos: Mujica e a Frente Ampla exemplar do Uruguai

Tar­so Gen­ro [1]

 

Luis ernesto lo envuleve en su afecto tentáculo de a ratos parece um buen ladrón del cine mudo seguro que es un fiel un pátria o muerte ojalá vivas marcos y se perde em el pozo..2]

 

O queri­do com­pan­heiro Daniel Caggiani, Senador da Frente Ampla no Uruguai, chama pelo tele­fone celu­lar min­ha mul­her San­dra Biten­court e nos comu­ni­ca que o ex-Pres­i­dente Muji­ca gostaria de nos rece­ber, no fim da tarde, para con­ver­sar­mos com mais tran­quil­i­dade do que fize­mos num even­to do dia ante­ri­or. Era uma reunião de um con­jun­to de líderes políti­cos, ex-Min­istros, ativis­tas dos Dire­itos Humanos e int­elec­tu­ais, pro­gra­ma­da para­le­la­mente ao even­to de Brasília, no qual Lula con­ver­saria – no dia seguinte – com os Pres­i­dentes sulamer­i­canos sobre a questão democráti­ca na Améri­ca do Sul e a retoma­da do nos­so proces­so de inte­gração. Há 52 anos, em 5 de fevereiro de 1971, uma exper­iên­cia orig­i­nal de unidade políti­ca entre social­is­tas democráti­cos, comu­nistas históri­cos, democ­ratas-cristãos, democ­ratas pro­gres­sis­tas de várias ver­tentes do repub­li­can­is­mo políti­co do país – inclu­sive blan­cos e col­orados – tin­ham fun­da­do no Uruguai a Frente Ampla, cuja unidade inve­jáv­el, capaci­dade políti­ca e dis­ci­plina con­sen­su­al, per­du­ra até o pre­sente. Nada como o Uruguai, por­tan­to, para abri­gar uma reunião daque­la natureza.
No nos­so even­to de “apoio” à reunião de Brasília, um dia antes – cuja sessão ini­cial teve a pre­sença de Muji­ca e Lucía, sua mul­her ex-Senado­ra da Repúbli­ca – debati com os par­tic­i­pante os rumos da inte­gração e a unidade fren­tista do cam­po democráti­co, con­tra os novos son­hos dita­to­ri­ais da extrema dire­i­ta lati­no-amer­i­cana. A reunião foi for­ma­da através de uma artic­u­lação de mais de um ano de reuniões e debates, pres­en­ci­ais e pela inter­net – orga­ni­za­da pelo Insti­tu­to Novos Par­a­dig­mas, Fun­dação Chile 21 e Fun­dação Sereg­ni, com a par­tic­i­pação dos ex-Pres­i­dentes Muji­ca, Ernesto Sam­per e o ex-Min­istro Cel­so Amor­im. Car­los Omi­na­mi (ex-Min­istro da Fazen­da do Primeiro Gov­er­no de Con­certación no Chile), Mon­i­ca Xavier (foi Senado­ra da Repúbli­ca no Uruguai) e o Pro­fes­sor Javier Miran­da (ex- Pres­i­dente da Frente Ampla), mais José Dirceu e Paulo Abrão, do Brasil, foram fun­da­men­tais para o suces­so do encon­tro, cujo doc­u­men­to final foi expos­to na reunião de Brasília pelo Pres­i­dente Alber­to Fer­nán­dez, da Repúbli­ca Argentina.
A nos­sa Frente Políti­ca no Brasil é uma exper­iên­cia con­tin­gente e necessária, num país em que as oli­gar­quias region­ais têm mais força do que os Par­tidos, que os par­tidos – em regra – olham a nação a par­tir do seu espaço políti­co region­al, cujos inter­ess­es “supe­ri­ores” – para eles – um dia irão se con­ju­gar para for­mar um Esta­do Nacional. O que inter­fere, deci­si­va­mente, na for­mação dos nos­sos Gov­er­nos Democráti­cos, depois da Con­sti­tu­ição de 88, é muito menos força dos par­tidos de qual­quer origem e muito mais as forças oligárquicas-region­ais que, pas­sam, ou não, para den­tro dos par­tidos, em dependên­cia do avanço da civil­i­dade da políti­ca ali insta­l­a­da. O Pres­i­dente Muji­ca diz, ao meu ver cor­re­ta­mente, que as forças da dire­i­ta se unem pelos seus inter­ess­es ime­di­atos e as forças da esquer­da e cen­tro-esquer­da se sep­a­ram pelo que pre­ten­dem do futuro. Daí a sua con­clusão que a esquer­da deve tra­bal­har com “tem­pos cur­tos” – como diz Muji­ca – não por mais de 5 anos, para gov­ernar com coerên­cia a pre­vis­i­bil­i­dade, “mer­cado­rias” escas­sas no Brasil, onde os Pres­i­dentes for­mam a sua base par­la­men­tar precária, depois de gan­har a eleição, com retal­hos de par­tidos inco­er­entes, que acabam sem­pre sur­preen­den­do o par­tido vence­dor na eleição majoritária.
Está­va­mos todos orgul­hosos da nos­sa empre­ita­da políti­ca naque­le dia do con­vite de Muji­ca, que espe­cial­mente para mim tin­ha um forte sig­nifi­ca­do políti­co. Ele fecha­va um “tem­po lon­go” de mil­itân­cia políti­ca, através de dois mar­cos pes­soais da min­ha tra­jetória: eu esta­va no Uruguai, em 1971, quan­do a Frente Ampla foi fun­da­da e tam­bém quan­do Muji­ca saiu da prisão – por um Túnel, em Pun­ta Car­retas – cava­do num lugar próx­i­mo onde almoçá­va­mos quan­do veio o tele­fone­ma de Caggiani. O mes­mo Muji­ca, que eu rece­bera como Gov­er­nador do Rio Grande do Sul no Palá­cio Pira­ti­ni, como Pres­i­dente do Uruguai, e que tam­bém vis­itei – no meu manda­to de Gov­er­nador – no Palá­cio pres­i­den­cial em Mon­te­v­ideo. Era uma época de um “tem­po lon­go”, que naque­le exa­to momen­to do con­vite se tor­na­va “cur­to”: o tem­po lon­go se tor­na­va, no espíri­to, uma reta ascen­dente e longilínea – antes tor­tu­osa e impre­vista – que ago­ra a memória trans­for­ma­va num tem­po cur­to, espaço unifi­ca­do de dor, de luta e tam­bém de cel­e­bração da vida.Dia 30 de maio, terça-feira, às 19.45 hs, mais ou menos a 25 km do cen­tro de Mon­te­v­idéu na chá­cara-residên­cia de Pepe Muji­ca e Lucia, no lugar “Rincón del Cer­ro”, encer­ramos – eu e min­ha mul­her San­dra Biten­court – lon­ga con­ver­sa com Pepe Muji­ca e sua mul­her Lúcia Topolan­s­ki. Foi quan­do abra­cei car­in­hosa­mente o vel­ho e queri­do com­bat­ente e lhe disse uma peque­na frase de des­pe­di­da: “Te cui­da!” Que ele me respon­deu com um “Has­ta siem­pre her­mano”. Sua des­pe­di­da comovente logo me lem­brou de Gio­van­ni Arrighi, do seu “O Lon­go Sécu­lo XX”, que – por seu turno – me fez apare­cer na memória “A Era dos Extremos, o breve Sécu­lo XX”, de Eric Hob­s­bawm”. O lon­go e o breve: tem­pos lon­gos e tem­pos cur­tos estavam ali, fun­di­dos em duas ger­ações lati­no-amer­i­canas, se con­sid­er­ar­mos que os tem­pos estão cur­tos; ou uma só ger­ação, se con­sid­er­ar­mos que os sécu­los con­tin­u­am lon­gos. Ao final da nos­sa con­ver­sa, já sem a gravação con­scien­ciosa de San­dra Bit­ten­court, Muji­ca abre uma breve recor­dação do seu “tem­po lon­go” nos cal­abouços da ditadura.
Encer­rá­va­mos uma lon­ga con­ver­sa sobre as respostas da democ­ra­cia lib­er­al às ditaduras dos anos 70, as relações de sol­i­dariedade entre os país­es da Améri­ca do Sul, a exper­iên­cia exem­plar da Frente Ampla no Uruguai e as ten­ta­ti­vas rev­olu­cionárias frustradas, no “cur­to” ou “lon­go” Sécu­lo XX, quan­do retor­na – pela voz de Muji­ca – o enig­ma insondáv­el do tem­po. “Cur­to”, se con­sid­er­ar­mos – como Hob­s­bawm – seu iní­cio históri­co em 1914, no começo da Primeira Guer­ra Mundi­al, e o seu final na que­da da Rev­olução Rus­sa, em 1991; mas que é “lon­go”, se nos puser­mos na per­spec­ti­va de Arrighi, que supõe exi­s­tir uma descon­tinuidade-con­tin­u­a­da per­ma­nente, no tem­po históri­co, cuja flex­i­bil­i­dade se amplia no espaço do mun­do face à evolução das regras impos­i­ti­vas do mer­ca­do. Mas o tem­po “lon­go” de Muji­ca remete dire­ta­mente, não para o mer­ca­do, mas para um cal­abouço, onde por mais de 12 anos a ditadu­ra urugua­ia pre­tendeu lhe aniquilar como ser humano, pelo silen­cio, pelo medo impos­to, pela tor­tu­ra físi­ca e psi­cológ­i­ca. E a ditadu­ra perdeu.
Então Muji­ca falou com a tran­quil­i­dade grandiosa dos home­ns sofri­dos de todos os tem­pos, com a grandeza pro­duzi­da por eles em todos os cal­abouços, onde foram joga­dos pelo des­ti­no que escol­her­am, falan­do por todos os que sobre­viver­am e assim vence­r­am. Mas tam­bém por todos os tristes, os der­ro­ta­dos e os mor­tos, cujos vestí­gios estão tan­to nos tem­pos lon­gos como nos tem­pos cur­tos, onde só a con­sciên­cia sobre­vive e o espíri­to nova­mente vol­ta para inqui­etar, con­stru­ir e edi­ficar um futuro para a Humanidade. Ele é ape­nas um roteiro, que é ape­nas um cam­in­ho que nun­ca será encon­tra­do. Mas que é tão só a própria incan­sáv­el e despo­ja­da dig­nidade humana: “nos momen­tos de maior exaustão no cal­abouço pro­curei – disse ele – mais na antropolo­gia do que na filosofia, algu­mas respostas que me fiz­er­am sobre­viv­er. Tra­ta-se da bus­ca do ‘dis­co rígi­do’ que deve estar no cen­tro da sub­je­tivi­dade de todos os seres humanos e que deve, um dia, nos unificar para bus­car­mos um des­ti­no comum. É uma utopia.” Pen­so que ela está pre­sente, tan­to nos tem­pos cur­tos da nos­sa vida, como nos seus lon­gos tem­pos em que desa­pare­ce­mos na poeira da História. Nos cur­tos cam­in­hos da nos­sa vida inteira ou nos lon­gos cam­in­hos de todas as ger­ações, que não se cansam de lutar por uma vida mel­hor para todos os seres humanos.

Em breve o Insti­tu­to Novos Par­a­dig­ma vai lançar o doc­u­men­tário Tar­so e Pepe- Por­fian­do futuro.”

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1 foi gov­er­nador do Esta­do do Rio Grande do Sul, prefeito de Por­to Ale­gre, min­istro da Justiça, min­istro da Edu­cação e min­istro das Relações Insti­tu­cionais do Brasil.

2 Mario Benedet­ti, 1971.

Seminário Máfia e Política, com Nino di Matteo e Alfredo Attié

Seminário Máfia e Política, com Nino di Matteo e Alfredo Attié

Ocor­reu em São Paulo, na Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, o Sem­i­nário Máfia e Políti­ca.

Orga­ni­za­do pela Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, pela Cát­e­dra San Tia­go Dan­tas e pela Poli­fo­nia Revista Inter­na­cional da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, o sem­i­nário con­tou com a pre­sença do Procu­rador Sub­sti­tu­to Antimá­fia ital­iano Nino de Mat­teo, um dos mais impor­tantes espe­cial­is­tas no tema, na Itália, e do Desem­bar­gador no Tri­bunal de Justiça de São Paulo Alfre­do Attié, um dos mais import­nates juris­tas brasileiros, espe­cial­ista em Dire­ito Con­sti­tu­cional, Ciên­cia e Filosofia Política.

O even­to con­tou com a pre­sença, tam­bém, do ex-Prefeito de Nápoles e ex-Procu­rador ital­iano Lui­gi de Mag­istris, da Pro­fes­so­ra ital­iana, vis­i­tante da Uni­ver­si­dade de Paris I, Alessia Magli­a­cane e do Pro­mo­tor de Justiça Fauzi Choukr.

O mag­istra­do Di Mat­teo fez reflexões a par­tir de sua impor­tante exper­iên­cia na inves­ti­gação e na bus­ca de con­de­nação de acu­sa­dos e na pre­venção con­tra o crime organizado.

O mag­istra­do e jurista Attié fez exposição sobre sua exper­iên­cia e sobre a neces­si­dade de uma retoma­da de um regime con­sti­tu­cional como proces­so cul­tur­al, a par­tir da análise das relações soci­ais e políti­cas como proces­so cul­tur­al, volta­do ao apri­mora­men­to democráti­co da sociedade. Fez críti­cas à exper­iên­cia brasileira anti­crime, que acabou por se cor­romper, pelo apego a inter­ess­es menores políti­cos e econômi­cos, na chama­da oper­ação lava-jato, que apon­tou para um ativis­mo anti­jurídi­co e acabou por levar a qua­tro anos de um regime anti­con­sti­tu­cional no Brasil.

O ex-mag­istra­do De Mag­istris falou de sua exper­iên­cia e da importân­cia do esta­b­elec­i­men­to de uma cul­tura anti­crime organizado.

Choukr fez inda­gação sobre a questão da uti­liza­ção dos meios dig­i­tais na práti­ca e no com­bate ao crime organizado.

Magli­a­cane fez inda­gações e falou sobre sua exper­iên­cia docente na matéria penal e constitucional.

O even­to é primeiro pas­so de uma parce­ria entre a Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, impor­tante insti­tu­ição de refer­ên­cia jurídi­ca brasileira e inter­na­cional, e os mag­istra­dos e juris­tas convidados.

O even­to foi orga­ni­za­do pela advo­ga­da e pro­fes­so­ra Rober­ta Attié, com a coor­de­nação do estadista Lui­gi de Mag­istris, sob os aus­pê­cios da APD, da Cát­e­dra San Tia­go Dan­tas e da Revista Poli­fo­nia (Capes A3).

O Sem­i­nário pode ser assis­ti­do pelo aces­so a este link.

 

Il Sem­i­nario Mafia e Polit­i­ca si è svolto a San Pao­lo, pres­so l’Acad­e­mia Paulista de Dire­ito.
Orga­niz­za­to da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, Cát­e­dra San Tia­go Dan­tas e Poli­fo­nia Revista INter­na­cional di Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, il sem­i­nario ha avu­to la parte­ci­pazione del Sos­ti­tu­to Procu­ra­tore Anti­mafia Nino de Mat­teo, uno dei più impor­tan­ti spe­cial­isti in mate­ria in Italia, e del Giu­dice del Tri­bunale Supe­ri­ore di Gius­tizia di São Paulo Alfre­do Attié, uno dei più impor­tan­ti giuristi brasil­iani, spe­cial­ista in Dirit­to Cos­ti­tuzionale, Scien­ze e Filosofia Politica.

All’even­to han­no parte­ci­pa­to anche l’ex Sin­da­co di Napoli ed ex Procu­ra­tore Lui­gi de Mag­istris, laPro­fes­sores­sa ital­iana, vis­i­ta­trice del­l’U­ni­ver­sità di Pari­gi I, Alessia Magli­a­cane e il Pro­mo­tor di Gius­tizia Fauzi Choukr.

Il mag­is­tra­to Di Mat­teo ha svolto rif­les­sioni sul­la base del­la sua impor­tante espe­rien­za nelle indagi­ni e nel­la ricer­ca del­la con­dan­na degli impu­tati e nel­la pre­ven­zione del­la crim­i­nal­ità organizzata.

Il mag­is­tra­to e giurista Attié ha par­la­to del­la sua espe­rien­za e del­la neces­sità di ripren­dere un regime cos­ti­tuzionale come proces­so cul­tur­ale, basato sul­l’anal­isi delle relazioni sociali e politiche come proces­so cul­tur­ale, final­iz­za­to al miglio­ra­men­to demo­c­ra­ti­co del­la soci­età. Ha crit­i­ca­to l’es­pe­rien­za anti­crim­ine brasil­iana, che ha fini­to per essere cor­rot­ta dal­l’at­tac­ca­men­to a inter­es­si politi­ci ed eco­nomi­ci minori, nel­la cosid­det­ta operazione“lava-jato“o, che ha indi­ca­to un attivis­mo anti-giuridi­co e ha fini­to per portare a quat­tro anni di regime anti­cos­ti­tuzionale in Brasile.

L’ex mag­is­tra­to De Mag­istris ha par­la­to del­la sua espe­rien­za e del­l’im­por­tan­za di instau­rare una cul­tura con­tro la crim­i­nal­ità organizzata.

Choukr ha pos­to domande sul­l’u­so dei media dig­i­tali nel­la prat­i­ca e nel­la lot­ta con­tro la crim­i­nal­ità organizzata.

Magli­a­cane ha pos­to domande e par­la­to del­la sua espe­rien­za di inseg­na­men­to in mate­ria penale e costituzionale.

L’even­to è il pri­mo pas­so di una part­ner­ship tra l’Ac­cad­e­mia di Dirit­to di San Pao­lo, impor­tante isti­tuzione di rifer­i­men­to giuridi­co brasil­iana e inter­nazionale, ei giu­di­ci e giuristi invitati.

L’even­to è sta­to orga­niz­za­to dal­l’avvo­ca­to e pro­fes­sores­sa Rober­ta Attié, con il coor­di­na­men­to del­lo sta­tista Lui­gi de Mag­istris, sot­to l’egi­da del­l’APD, del­la Cat­te­dra San Tia­go Dan­tas e del­la Revista Poli­fo­nia (Capes A3).

Il Sem­i­nario può essere vis­to acce­den­do a questo link.

Academia realiza o Seminário Internacional Máfia e Política

Academia realiza o Seminário Internacional Máfia e Política

Ocor­reu em São Paulo, na Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, o Sem­i­nário Máfia e Políti­ca.

Orga­ni­za­do pela Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, pela Cát­e­dra San Tia­go Dan­tas e pela Poli­fo­nia Revista Inter­na­cional da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, o sem­i­nário con­tou com a pre­sença do Procu­rador Sub­sti­tu­to Antimá­fia ital­iano Nino de Mat­teo, um dos mais impor­tantes espe­cial­is­tas no tema, na Itália, e do Desem­bar­gador no Tri­bunal de Justiça de São Paulo Alfre­do Attié, um dos mais import­nates juris­tas brasileiros, espe­cial­ista em Dire­ito Con­sti­tu­cional, Ciên­cia e Filosofia Política.

O even­to con­tou com a pre­sença, tam­bém, do ex-Prefeito de Nápoles e ex-Procu­rador ital­iano Lui­gi de Mag­istris, da Pro­fes­so­ra ital­iana, vis­i­tante da Uni­ver­si­dade de Paris I, Alessia Magli­a­cane e do Pro­mo­tor de Justiça Fauzi Choukr.

O mag­istra­do Di Mat­teo fez reflexões a par­tir de sua impor­tante exper­iên­cia na inves­ti­gação e na bus­ca de con­de­nação de acu­sa­dos e na pre­venção con­tra o crime organizado.

O mag­istra­do e jurista Attié fez exposição sobre sua exper­iên­cia e sobre a neces­si­dade de uma retoma­da de um regime con­sti­tu­cional como proces­so cul­tur­al, a par­tir da análise das relações soci­ais e políti­cas como proces­so cul­tur­al, volta­do ao apri­mora­men­to democráti­co da sociedade. Fez críti­cas à exper­iên­cia brasileira anti­crime, que acabou por se cor­romper, pelo apego a inter­ess­es menores políti­cos e econômi­cos, na chama­da oper­ação lava-jato, que apon­tou para um ativis­mo anti­jurídi­co e acabou por levar a qua­tro anos de um regime anti­con­sti­tu­cional no Brasil.

O ex-mag­istra­do De Mag­istris falou de sua exper­iên­cia e da importân­cia do esta­b­elec­i­men­to de uma cul­tura anti­crime organizado.

Choukr fez inda­gação sobre a questão da uti­liza­ção dos meios dig­i­tais na práti­ca e no com­bate ao crime organizado.

Magli­a­cane fez inda­gações e falou sobre sua exper­iên­cia docente na matéria penal e constitucional.

O even­to é primeiro pas­so de uma parce­ria entre a Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, impor­tante insti­tu­ição de refer­ên­cia jurídi­ca brasileira e inter­na­cional, e os mag­istra­dos e juris­tas convidados.

O even­to foi orga­ni­za­do pela advo­ga­da e pro­fes­so­ra Rober­ta Attié, com a coor­de­nação do estadista Lui­gi de Mag­istris, sob os aus­pê­cios da APD, da Cát­e­dra San Tia­go Dan­tas e da Revista Poli­fo­nia (Capes A3).

O Sem­i­nário pode ser assis­ti­do pelo aces­so a este link.

 

 

Il Sem­i­nario Mafia e Polit­i­ca si è svolto a San Pao­lo, pres­so l’Acad­e­mia Paulista de Dire­ito.
Orga­niz­za­to da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, Cát­e­dra San Tia­go Dan­tas e Poli­fo­nia Revista INter­na­cional di Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, il sem­i­nario ha avu­to la parte­ci­pazione del Sos­ti­tu­to Procu­ra­tore Anti­mafia Nino de Mat­teo, uno dei più impor­tan­ti spe­cial­isti in mate­ria in Italia, e del Giu­dice del Tri­bunale Supe­ri­ore di Gius­tizia di São Paulo Alfre­do Attié, uno dei più impor­tan­ti giuristi brasil­iani, spe­cial­ista in Dirit­to Cos­ti­tuzionale, Scien­ze e Filosofia Politica.

All’even­to han­no parte­ci­pa­to anche l’ex Sin­da­co di Napoli ed ex Procu­ra­tore Lui­gi de Mag­istris, laPro­fes­sores­sa ital­iana, vis­i­ta­trice del­l’U­ni­ver­sità di Pari­gi I, Alessia Magli­a­cane e il Pro­mo­tor di Gius­tizia Fauzi Choukr.

Il mag­is­tra­to Di Mat­teo ha svolto rif­les­sioni sul­la base del­la sua impor­tante espe­rien­za nelle indagi­ni e nel­la ricer­ca del­la con­dan­na degli impu­tati e nel­la pre­ven­zione del­la crim­i­nal­ità organizzata.

Il mag­is­tra­to e giurista Attié ha par­la­to del­la sua espe­rien­za e del­la neces­sità di ripren­dere un regime cos­ti­tuzionale come proces­so cul­tur­ale, basato sul­l’anal­isi delle relazioni sociali e politiche come proces­so cul­tur­ale, final­iz­za­to al miglio­ra­men­to demo­c­ra­ti­co del­la soci­età. Ha crit­i­ca­to l’es­pe­rien­za anti­crim­ine brasil­iana, che ha fini­to per essere cor­rot­ta dal­l’at­tac­ca­men­to a inter­es­si politi­ci ed eco­nomi­ci minori, nel­la cosid­det­ta operazione“lava-jato“o, che ha indi­ca­to un attivis­mo anti-giuridi­co e ha fini­to per portare a quat­tro anni di regime anti­cos­ti­tuzionale in Brasile.

L’ex mag­is­tra­to De Mag­istris ha par­la­to del­la sua espe­rien­za e del­l’im­por­tan­za di instau­rare una cul­tura con­tro la crim­i­nal­ità organizzata.

Choukr ha pos­to domande sul­l’u­so dei media dig­i­tali nel­la prat­i­ca e nel­la lot­ta con­tro la crim­i­nal­ità organizzata.

Magli­a­cane ha pos­to domande e par­la­to del­la sua espe­rien­za di inseg­na­men­to in mate­ria penale e costituzionale.

L’even­to è il pri­mo pas­so di una part­ner­ship tra l’Ac­cad­e­mia di Dirit­to di San Pao­lo, impor­tante isti­tuzione di rifer­i­men­to giuridi­co brasil­iana e inter­nazionale, ei giu­di­ci e giuristi invitati.

L’even­to è sta­to orga­niz­za­to dal­l’avvo­ca­to e pro­fes­sores­sa Rober­ta Attié, con il coor­di­na­men­to del­lo sta­tista Lui­gi de Mag­istris, sot­to l’egi­da del­l’APD, del­la Cat­te­dra San Tia­go Dan­tas e del­la Revista Poli­fo­nia (Capes A3).

Il Sem­i­nario può essere vis­to acce­den­do a questo link.

 

Wagner Balera lança livro na Universidade de Coimbra

Wagner Balera lança livro na Universidade de Coimbra

O Pro­fes­sor Tit­u­lar de Dire­itos Humanos da Fac­ul­dade de Dire­ito da PUC.SP, Acadêmi­co Tit­u­lar da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, Wag­n­er Balera, lança impor­tante livro em Portugal.

A Edi­to­ra Juruá Europa con­vi­da para o lança­men­to de Man­u­al de Dire­ito Prev­i­den­ciário no Brasil, no dia 26 de maio, na Fac­ul­dade de Dire­ito da Uni­ver­si­dade de Coimbra.

O livro pos­sui capí­tu­lo volta­do à inter­pre­tação do dire­ito por­tuguês, sendo coor­de­na­do tam­bém por Cris­tiane Miziara Mus­si, ten­do pre­fá­cio do Acadêmi­co Hon­orário da APD e Advo­ga­do Nel­son Faria de Oliveira.

 

No ar, POLIFONIA n. 10

No ar, POLIFONIA n. 10

Foi pub­li­ca­da e já está disponív­el para con­sul­ta e leitu­ra, a edição 10 da POLIFONIA Revista Inter­na­cional da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito.

A Revista pode ser aces­sa­da por meio deste link, e ain­da pode ser encon­tra­da na pági­na cor­re­spon­dente à Revista, no site da APD, assim como na pági­na de sua Bib­liote­ca digital.

Como diz o Pres­i­dente da Acad­e­mia Paulista de Dire­ito, Alfre­do Attié, Tit­u­lar da Cadeira San Tia­go Dan­tas,  em seu Edi­to­r­i­al, a POLIFONIA afir­ma-se a cada edição, de modo cres­cente e con­sis­tente, como meio de reflexão e comu­ni­cação jurídi­ca e trans­dis­ci­pli­nar, no ambi­ente nacional e internacional.

Para tan­to, acres­cen­ta Attié, “con­ta com o pro­tag­o­nis­mo impor­tante dos mem­bros de seu pro­je­to, de sua direção e de seu con­sel­ho edi­to­r­i­al, assim como com a colab­o­ração de impor­tantes vozes nacionais, estrangeiras e inter­na­cionais do dire­ito e dos saberes que com ele inter­agem e coop­er­am, para a con­sti­tu­ição de um proces­so civ­i­liza­cional autên­ti­co, impli­ca­do com a democ­ra­cia, a justiça e os dire­itos humanos, e, nesse sen­ti­do, com a exten­são, inclusão e par­tic­i­pação da sociedade e dos povos.

A APD con­vi­da à leitu­ra de POLIFONIA e à par­tic­i­pação, na con­strução desse encon­tro e na grande con­ver­sação dos povos.

 

IPEDD exige aprovação imediata do Projeto de Lei contra Fakenews

IPEDD exige aprovação imediata do Projeto de Lei contra Fakenews
O Insti­tu­to Piraci­ca­bano de Estu­dos e Defe­sa da Democ­ra­cia pub­li­cou hoje, dia 11 de maio de 2023, declar­ação em que enfa­ti­za a neces­si­dade de aprovação urgente do PL das Fak­e­news pelo Con­gres­so nacional.
O tex­to sub­lin­ha a importân­cia da pro­teção da infor­mação e da neces­si­dade de coibir o emprego das platafor­mas e mídias soci­ais dig­i­tais para o come­ti­men­to de atos ilícitos.
Leia seguir a impor­tante manifestação:
As notí­cias, os vídeos fal­sos (fake news e deep­fakes) e os dis­cur­sos de ódio, dis­sem­i­na­dos sem freios, abun­dante e diu­tur­na­mente, no ambi­ente vir­tu­al, no Brasil e no resto do mun­do, nutrem o ambi­ente favoráv­el à edi­fi­cação do fas­cis­mo, em con­tra­posição à paz, à har­mo­nia, à segu­rança cidadã e aos dire­itos humanos e democráti­cos típi­cos das sociedades mod­er­nas e civ­i­lizadas. Nos­sa pátria, a despeito de muitos man­don­is­mos, racis­mos e pactos antipop­u­lares que impreg­nam a sua história, resiste e está voca­ciona­da para a con­strução da democ­ra­cia em sua plen­i­tude, cla­man­do para que tais anom­alias sejam com­bat­i­das sem tréguas, através da reg­u­lação urgente das platafor­mas digitais.
Com essa com­preen­são cristali­na e inarredáv­el, o Insti­tu­to Piraci­ca­bano de Estu­dos e Defe­sa da Democ­ra­cia — IPEDD — vem a públi­co para se asso­ciar a todos os setores democráti­cos da sociedade brasileira em apoio à aprovação ime­di­a­ta do Pro­je­to de Lei 2630/2020, que teve origem no Sena­do e ora trami­ta na Câmara dos Dep­uta­dos, pron­to para ser vota­do em regime de urgên­cia. A votação está adi­a­da por tem­po inde­ter­mi­na­do em razão de divergên­cias entre os par­tidos, sobre­tu­do aque­les pres­sion­a­dos por setores con­trários à sua aprovação, par­tic­u­lar­mente os vin­cu­la­dos às platafor­mas dig­i­tais, sob o fal­so argu­men­to de que tal reg­u­lação acar­retaria o fim da liber­dade de expressão. As assim chamadas “big techs” vêm tra­van­do ver­dadeira guer­ra con­tra a reg­u­lação do ambi­ente vir­tu­al, ciosas do lucro fácil que obtêm com as notí­cias fal­sas e os dis­cur­sos de ódio e pouco se impor­tan­do com os danos à ordem democráti­ca brasileira.
O IPEDD recon­hece que há alguns pon­tos con­tro­ver­tidos que remanescem no tex­to do referi­do PL, sobre­tu­do os que dizem respeito, de um lado, a qual ente gov­er­na­men­tal caberá a respon­s­abil­i­dade pela fis­cal­iza­ção dos dis­pos­i­tivos legais decor­rentes e, de out­ro, à per­t­inên­cia ou não de remu­ner­ação dos con­teú­dos jor­nalís­ti­cos pro­duzi­dos pelas empre­sas da grande mídia. Diante dis­so, as nego­ci­ações cabíveis são bem vin­das e típi­cas da ativi­dade par­la­men­tar, mas não devem ser tratadas como obstácu­los intransponíveis e capazes de impedir ou pro­cras­ti­nar indefinida­mente a aprovação do mar­co reg­u­latório em pauta.
Urge a aprovação do PL 2630/2020. A democ­ra­cia agradece!

As contradições da difícil (re)construção democrática brasileira

As contradições da difícil (re)construção democrática brasileira

Em mais uma impor­tante reportagem, o jor­nal­ista Jamil Chade, espe­cial­ista na análise das relações inter­na­cionais e de sua conexão com os dire­itos humanos, demon­stra as difi­cul­dades na con­strução de uma políti­ca inter­na­cional de dire­itos humanos, diante das con­tradições na visão de difer­entes setores de gov­er­no a propósi­to de ação em cur­so na Corte Inter­amer­i­cana de Dire­itos Humanos, a propósi­to da vio­lação de povos e ter­ritórios quilom­bo­las em Alcân­tara, no Esta­do do Maranhão.

 

 

Leia o orig­i­nal da reportagem, na Folha/UOL, e a repro­dução do tex­to a seguir:

Num reflexo da difer­ença de visões entre as pas­tas da Defe­sa, da Advo­ca­cia-Ger­al da União, de Dire­itos Humanos e da Igual­dade Racial, o posi­ciona­men­to do gov­er­no brasileiro diante da Corte Inter­amer­i­cana de Dire­itos Humanos rev­ela con­tradições na cúpu­la do poder. O Brasil está sendo jul­ga­do pela vio­lação de dire­itos humanos de 152 comu­nidades remanes­centes de quilom­bos, em Alcân­tara, no Maran­hão, no con­tex­to da insta­lação do Cen­tro de Lança­men­to de Alcân­tara, na déca­da de 1980.

Mas, num gesto inédi­to, o Esta­do brasileiro usou a audiên­cia da Corte real­iza­da na sem­ana pas­sa­da e recon­heceu sua respon­s­abil­i­dade diante das comu­nidades quilom­bo­las de Alcân­tara que tiver­am seus dire­itos humanos vio­la­dos. Um pedi­do for­mal de des­cul­pas foi apre­sen­ta­do durante as audiên­cias, ato aplau­di­do por enti­dades da sociedade civ­il, defen­sores de dire­itos humanos e sur­preen­deu até mes­mo a Corte. 

A con­strução desse pedi­do de des­cul­pas, porém, foi per­me­a­da por divergên­cias entre difer­entes áreas do gov­er­no de Luiz Iná­cio Lula da Sil­va. A pro­pos­ta de recon­hec­i­men­to da respon­s­abil­i­dade indi­ca a forte influên­cia dos min­istérios que lidam com dire­itos humanos e igual­dade racial na artic­u­lação da posição. Para muitos den­tro do gov­er­no e mes­mo no Ita­ma­raty, existe uma chance ele­va­da de que o Esta­do brasileiro seja con­de­na­do pela Corte. 

O pedi­do de des­cul­pas, por­tan­to, sig­nifi­caria tan­to um recon­hec­i­men­to da existên­cia da vio­lação quan­to uma mudança de pos­tu­ra com o obje­ti­vo de dar pas­sos con­cre­tos para trans­for­mar a ação do Esta­do diante das pop­u­lações mais vulneráveis.

Quan­do à ideia do pedi­do de des­cul­pas, o Min­istério da Defe­sa avaliou o tema como del­i­ca­do, pois toca no inter­esse nacional de for­t­ale­cer o pro­gra­ma espa­cial e ain­da os planos de expan­são do Cen­tro de Lança­men­to de Alcân­tara. O dis­cur­so de que o Brasil defende a reparação às comu­nidades e recon­hece as vio­lações, por­tan­to, não aten­de­ri­am aos inter­ess­es dos mil­itares. Com uma pos­tu­ra tradi­cional­mente mais con­ser­vado­ra, a AGU tam­bém resis­tiu à ideia.

Do lado dos Min­istérios dos Dire­itos Humanos e da Igual­dade Racial, o entendi­men­to cam­in­ha para uma pos­tu­ra mais respon­si­va aos dire­itos humanos per­ante a Corte. Uma dis­cussão, assim, que teria sido fru­to de meses para o con­venci­men­to dos demais seg­men­tos do Esta­do. E o debate chegou até a Casa Civ­il, onde foi arbi­tra­do em prol de um recon­hec­i­men­to par­cial de responsabilidade.

Ape­sar da nego­ci­ação que envolveu a AGU e o Palá­cio do Planal­to, o gov­er­no não con­seguiu escon­der as con­tradições. Durante a audiên­cia, ficou claro que exis­tia uma dis­pu­ta de nar­ra­ti­vas den­tro do próprio Esta­do brasileiro. Se de um lado o país pediu des­cul­pas, aceitou uma respon­s­abil­i­dade par­cial e até anun­ciou algu­mas medi­das, de out­ro lado os advo­ga­dos do Esta­do ten­taram excluir a com­petên­cia da Corte Interamericana. 

A mudança rad­i­cal do pedi­do de des­cul­pas foi, para a sur­pre­sa dos juízes, segui­da por argu­men­tos da existên­cia de exceções. A meta era a de evi­tar o jul­ga­men­to pelo méri­to. Em out­ras palavras: o Brasil recon­hecia as vio­lações e, ao mes­mo tem­po, ten­ta­va impedir que o tri­bunal jul­gasse seus atos. Para isso, dois argu­men­tos foram usa­dos: o primeiro era de que o Brasil aderiu à Corte Inter­amer­i­cana ape­nas depois das obras do Cen­tro de Lança­men­tos. Ou seja, um debate sobre a incidên­cia tem­po­ral da com­petên­cia da Corte. O segun­do argu­men­to era de que não se pode­ria aplicar a con­venção da OIT que lida com os dire­itos das comu­nidades, já que na época da con­strução do CLA, tal mecan­is­mo ain­da não esta­va em vigor.

A inquir­ição das teste­munhas pelo Esta­do em tom de ques­tion­a­men­to dos dire­itos em dis­cussão, não indi­ca­va que have­ria um pedi­do de retratação na sus­ten­tação oral. A insistên­cia em tais argu­men­tos indi­ca o prevalec­i­men­to de posições mais con­ser­vado­ras do gov­er­no, defen­di­das pela Defe­sa e AGU. Os juízes insi­s­ti­ram em apon­tar para a inco­erên­cia entre o pedi­do de des­cul­pas e a ten­ta­ti­va do esta­do de impedir que o tri­bunal tivesse o poder para julgá-lo.

Na Defe­sa, a expec­ta­ti­va é de que o Brasil ain­da pode sair vence­dor no jul­ga­men­to, algo ques­tion­a­do por diplo­matas e espe­cial­is­tas em dire­itos humanos. A ala mil­i­tar, porém, ain­da acred­i­ta que pode ter mais espaço para influ­en­ciar a posição do esta­do nas próx­i­mas eta­pas do proces­so. Enquan­to isso, mem­bros da sociedade civ­il que acom­pan­ham o proces­so con­fir­mam que o caso aca­ba sendo rev­e­lador das pro­fun­das difer­enças que exis­tem entre difer­entes alas do esta­do brasileiro sobre como lidar com as vio­lações de dire­itos humanos e sobera­nia nacional.

 

Entre Morfina, Cloroquina, Mortandade Coletiva e Irresponsabilidade Institucional

Entre Morfina, Cloroquina, Mortandade Coletiva e Irresponsabilidade Institucional

Em mais um tex­to pri­moroso, o jurista e estadista Tar­so Gen­ro bus­ca rev­e­lar as relações entre um movi­men­to que dese­ja­va destru­ir o País e seu povo e sua pre­ten­são de irresponsabilidade.

O tex­to foi pub­li­ca­do, em 30 de abril, na Revista na Revista Sul 21, e pode ser lido a seguir.

Direito e Literatura na Morfina de Bolsonaro

Tarso Genro

Gov­er­nador do Esta­do do Rio Grande do Sul,
Prefeito de Por­to Alegre,
Min­istro da Justiça,
Min­istro da Educação,
Min­istro das Relações Insti­tu­cionais do Brasil.

 

“O ex-Pres­i­dente Jair Bol­sonaro ale­gou no seu depoi­men­to à Polí­cia Fed­er­al que esta­va sob os efeitos da mor­fi­na quan­do fez o com­par­til­hamen­to de um vídeo niti­da­mente golpista, pro­movi­do num momen­to de grande ten­são políti­ca no país, ger­a­do pela escal­a­da de um golpe que ele con­duzia. Se ver­dadeiro, o uso deste argu­men­to, ele ape­nas agra­va a sua situ­ação como futuro réu, porque é sabido que o com­par­til­hamen­to não foi uma ação iso­la­da, mas parte de um crime con­tin­u­a­do, cometi­do em cir­cun­stân­cias espe­ci­ais de saúde men­tal e em momen­tos de ple­na lucidez, nos dois últi­mos anos do seu alu­ci­na­do mandato.

Mas há uma segun­da e uma ter­ceira hipótese. Se a sua  respos­ta – segun­da hipótese – foi só uma ori­en­tação da sua defe­sa, para  aten­uar a sua respon­s­abil­i­dade penal, o argu­men­to pode ser  toma­do como um ape­lo para a redução de uma futu­ra pena, a ser cumpri­da em  esta­b­elec­i­men­tos de recu­per­ação de pes­soas afe­tadas por psi­coses graves, que pas­sam  a ser ser­i­al-killers da políti­ca democráti­ca, quan­do são capazes de plane­jar as suas ações.

Há, todavia, uma ter­ceira hipótese que, para mim, é mais prováv­el: Bol­sonaro fez uma iro­nia e ape­nas debo­chou dos poderes de Esta­do naque­le momen­to, na pre­sença dos Poli­ci­ais Fed­erais que antes ele bus­ca­va coop­tar  “pelo alto”, para uma con­spir­ação de natureza golpista e fascista.  Deu, assim,  prossegui­men­to ao despre­zo ao Esta­do de Dire­ito, que ele odeia por dois motivos fun­da­men­tais: primeiro, porque os manía­cos depres­sivos não aceitam ser con­trari­a­dos; segun­do, porque os paranói­cos detes­tam até as for­mas de tol­erân­cia que a democ­ra­cia devota aos seus carrascos.

Antes de “fechar” a ideia do pre­sente tex­to, uma base para reflexão: Borges está para a lit­er­atu­ra assim como Kelsen está para o Dire­ito, pela ado­ração ao império das for­mas que ambos cul­ti­vavam, ain­da que por con­du­tos e canais difer­entes. A sub­je­tivi­dade anárquica do gênio de Borges instau­ra a fal­sa “pureza” for­mal da lit­er­atu­ra, cuja arquite­tu­ra cen­tral – nos seus tex­tos –  esgo­ta­va-se nas relações da palavra com a palavra, que saíam do seu esta­do aními­co, vivas ape­nas nos nex­os dados a elas, no tex­to que ali esta­va sendo escrito.

Inde­pen­den­te­mente do sig­nifi­ca­do da sua lin­guagem cor­rente, Borges for­ja­va a lit­er­atu­ra em “esta­do puro”, na qual a dialéti­ca das for­mas – como que por encan­to – se sep­a­r­a­va dos movi­men­tos reais da vida e só a palavra apare­cia como sober­ana, para pro­je­tar os sen­ti­men­tos mais recôn­di­tos do autor, para os quais a pre­sença da vida real e dos sen­ti­men­tos dos out­ros não impor­ta­va: todos são pequenos demais, menos os ingle­ses da sua lin­hagem,  para mere­cer um out­ro tipo de encan­ta­men­to mais generoso.

Qual a analo­gia de Borges com Kelsen? Ela reside no cerne da Teo­ria Pura do Dire­ito de Kelsen, antes da grande vira­da que deu, quan­do pas­sou a recon­hecer que o Esta­do Nazista não era um Esta­do de Dire­ito,  cuja eti­ci­dade e moral­i­dade estari­am, pre­sum­i­da­mente, pre­sentes  den­tro do seu sis­tema de nor­mas, só porque este era coer­ente con­si­go mes­mo. O nazis­mo seria, assim, para o últi­mo Kelsen, um sis­tema de poder sem dire­ito e sem moral, que escrav­iza­va a sociedade pela força bru­ta, que o dire­ito – ao mes­mo tem­po que reg­u­larizaria – trava­va e orga­ni­za­va pelo medo.

A sub­je­tivi­dade de Kelsen, antes dessa vira­da, dava a esta­bil­i­dade estáti­ca e buro­cráti­ca ao Dire­ito, dizen­do que ele é – como for­ma  orgâni­ca do Esta­do – a lóg­i­ca desp­i­da da emoção que todos dev­e­ri­am cul­tu­ar a par­tir da nor­ma fun­da­men­tal, que tan­to pode vir de Deus como da sociedade. As for­mas de Kelsen reves­ti­am  o dire­ito de uma dig­nidade pre­sum­i­da pela coerên­cia inter­na do sis­tema e as for­mas de Borges davam beleza a sua lit­er­atu­ra, “pura” de qual­quer con­ceito políti­co, pela har­mo­nia que  lig­a­va as palavras dotadas de novos sentidos.

Por este cam­in­ho Kelsen for­ma­va o con­ceito do “estatal”, de maneira aparente­mente “cien­tí­fi­ca”, onde as relações entre as palavras devem ser  cien­tifi­ca­mente resolvi­das: elas adquiri­am o seu sig­nifi­ca­do como nor­mas (com­postas por palavras), não como o dis­cur­so da arte em Borges. Em Kelsen as palavras “supe­ri­ores” dão sig­nifi­ca­do às palavras “infe­ri­ores” e é nes­ta imputação que o dire­ito assume sua neu­tral­i­dade cien­tí­fi­ca, afo­ra e aci­ma das “ide­olo­gias”. As palavras escol­hi­das pela ciên­cia em Kelsen, já vin­ham desp­i­das de ide­olo­gias clas­sis­tas ou reli­giosas e, em Borges, elas se tor­navam arte pela sua estéti­ca de con­teú­dos arbitrários.

Vejam como Lit­er­atu­ra e Dire­ito podem adquirir uni­ver­sal­i­dade, a par­tir de episó­dios par­tic­u­lares que, ao mes­mo tem­po incor­po­ram momen­tos mais sin­gu­lares ou mais uni­ver­sais: um episó­dio sin­gu­lar é, por exem­p­lo, o momen­to  que um tor­tu­ra­do perece nas mãos do tor­tu­rador – for­ma jurídi­ca dos inquéri­tos medievais na Inquisição –  momen­to jurídi­co par­tic­u­lar  comum à época, que con­ta­do por um romancista de tal­en­to pode uni­ver­salizar a redenção do heroís­mo mod­er­no, fazen­do a fusão do Dire­ito com a grande lit­er­atu­ra human­ista do real­is­mo crítico.

Borges con­ta que, quan­do Gabriel Ros­set­ti leu “O mor­ro dos ven­tos uiv­antes”, escreveu a um ami­go: “a ação transcorre no infer­no, mas os lugares, não sei porque, têm nomes ingle­ses.” A sen­tença sin­te­ti­za de maneira fan­tás­ti­ca todo o impasse do bol­sonar­is­mo, no atu­al perío­do históri­co de resistên­cia ao fas­cis­mo, num país de heróis e már­tires, como o Brasil, onde a reverên­cia européia à nobreza e às famílias reais se ban­ham em iro­nia e onde capitães aposen­ta­dos por prob­le­mas men­tais, que fari­am o hor­ror a Geisel e Caste­lo Bran­co, tor­nam-se líderes de uma parte sig­ni­fica­ti­va da nação.

Ao rev­e­lar que esta­va dopa­do pela mor­fi­na, naque­le inter­ro­gatório poli­cial que dev­e­ria ser estu­da­do em pro­fun­di­dade para enten­der­mos o sub­con­sciente e o incon­sciente do bol­sonar­is­mo e do Brasil, da impren­sa, dos poderes e dos par­tidos, que não ficaram estar­reci­dos com as declar­ações do ex-Pres­i­dente, Bol­sonaro nos aler­tou. Suas palavras nos apre­sen­taram o Brasil pro­fun­do, mais per­to do infer­no do que dos ingle­ses – mais per­to do caos do que da da idi­o­tia cole­ti­va que nos assolou, que pode restau­rar por aqui mod­e­los mais próx­i­mos dos cam­pos de con­cen­tração do que das metá­foras bor­gianas: mais per­to da real­i­dade da morte do que  das palavras encadeadas só como beleza, que ora corte­jam a ale­gria da leitu­ra, ora corte­jam o desas­tre da mor­tan­dade coletiva.”